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‘Silêncio’- Shusaku Endo

O Sábado da História

 

Em 1967, Joseph Ratzinger, foi convidado pela radio Bavária para contribuir com a celebração da Semana Santa. Deste convite, nascem talvez as palavras mais densas já escritas pela pena de Ratzinger.

Sua meditação sobre o “Sábado da História” nos convida a refletir sobre a descida de Cristo ao Inferno e sobre o mistério pascal, e assim refletirmos sobre nossa própria existência como cristãos em um mundo árido, carente da presença divina.

Diz Ratzinger :

O Sábado sagrado, dia do enterro de Deus – não é este estranhamente também nosso dia? Não se tornou nosso século um grande Sábado Sagrado, um dia de ausência de Deus, um dia em que congela mesmo o coração dos discípulos enquanto estes se preparam para voltar para suas casas cobertos de vergonha e medo…? [i]

No sábado da história, tudo o que temos da presença de Deus é o seu silêncio.

 

Uma fé, dois mundos

 Nascido no ano de 1923 em Tóquio, Japão, Shusaku Endo vive sua primeira infância na Manchúria – região continental do extremo leste da Ásia, à beira do mar do Japão. Após o divórcio de seus pais, retorna com sua mãe à ilha de Honshu em 1933. Aos doze anos de idade é batizado na fé Católica, na cidade de Kobe.

Ser católico em um país como o Japão é ser desde sempre um pária, não apenas por uma questão religiosa – as denominações mais populares no Japão são de Budistas e Xintoístas – mas também tendo em vista a intrincada percepção para o japonês de que o cristianismo é algo estrangeiro à sua natureza.

Com o advento da Segunda Guerra Mundial, esta percepção acentua-se e ganha contornos paranóicos, pois os cristãos passam a ser vistos no país com suspeita e ressentimento, como possíveis inimigos do estado [ii]; para ser ainda mais preciso, inimigos do próprio imperador – então e tradicionalmente, idolatrado como um deus pelos seus súditos.

Diante desta realidade, algo ainda mais particular perturbava a consciência de Endo, tornando sua fé mais vacilante. É Philip Yancey quem nos conta sobre este drama:

“Eu me tornei um católico contra minha vontade” – diz Endo. Endo via sua fé como um casamento arranjado. Ele tentou abandonar a esposa – pelo marxismo, pelo ateísmo, até mesmo ao contemplar o suicídio. Mas suas tentativas de fuga fallharam sempre. Ele não conseguia viver com sua esposa, mas também não conseguia viver sem ela. Com o tempo, ela continuou a amá-lo – e ele cresceu para amá-la em retorno.[iii]

Na juventude, a sensação de ser um pária se torna ainda mais forte. Costumava matar aulas para ir ao cinema, o que termina por afetar seus estudos. Tenta e falha por diversas vezes o acesso a faculdades, e apenas após três tentativas é aceito no departamento de letras da faculdade de Keio. Após sua graduação, por influência de seu amigo Yoshihiko Yoshimitsu – que foi aluno de Jacques Maritain – Endo vai para a França com a esperança de encontrar um ambiente acolhedor para sua fé, visto que era a França de nomes como George Bernanos e François Mauriac, autores que admirava e que ecoavam seus dramas pessoais.

Mas ao chegar em Lyon, em 1950, Endo encontra uma França espiritualmente apática e notadamente racista. Ele novamente se vê como pária, mas agravada desta vez a experiência pelo preconceito e pela rejeição ao estrangeiro.

Mesmo assim, conhece uma jovem estudante francesa – Françoise Pastre – com quem vive um casto romance. Romance que não irá durar muito, pois ambos sabem que diante dos preconceitos raciais à epóca, jamais seria aceito o casamento dos dois.

Além do romance condenado, outro acontecimento irá marcar este período da vida de Endo, com consequências futuras indeléveis: será diagnosticado com tuberculose e submetido a uma toracotomia, o que irá fazer com que interrompa e, posteriormente, abandone os estudos.

A doença irá marcar sua vida, assim como marcou a vida de outro escritor católico de enorme talento e dificil compreensão, Flannery O`Connor.

É Makoto Fujimura quem traça o paralelo:

Flannery teve uma luta bem conhecida contra o lúpus. Endo sofreu uma luta semelhante contra a má saúde ao longo de sua vida, o que o convenceu desde o início de que tinha um tempo muito limitado na Terra. Imagino que sua primeira experiência como estudante na França, quando foi forçado a ser hospitalizado, teve um profundo efeito sobre sua linguagem como escritor. Endo é um romancista de dor. Ele escreve para tentar superar as barreiras e os limites da linguagem através da compreensão do sofrimento humano. [iv]

Ao meditar não apenas sobre a influência do sofrimento físico na obra de Endo, mas também da angústia nascida do sentimento de ser um exilado no mundo, de sua insegurança intelectual, Fujimura revela aquilo que poucos de nós compreendemos: a necessidade de superar nossos traumas através de uma arte que seja regenerativa.

Imagine ser um estudante estrangeiro, lutando com barreiras culturais e linguísticas, e depois ser hospitalizado em uma enfermaria de isolamento. Vivendo sob estas condições e num país assombrado pela guerra, Endo foi levado a explorar o seu trauma pessoal e, através dessa reflexão, descobriu uma condição universal. A linguagem de Endo se torna um mapa de traumas: traições, dor e dúvida permeiam suas obras. Todas os reveses de sua vida – suas muitas cirurgias, sua falta de credenciais acadêmicas, sua vacilante e aparentemente ambivalente fé, sua experiência de ser um desajustado no seu país e no exterior – se transformam em lutas pelas quais seus personagens nessas histórias se transformam, seja para sua destruição ou para seu crescimento inesperado como seres humanos. No processo dessa transformação, Endo descreve uma graça delicada, como um neurocirurgião hábil que vê uma operação não apenas como algo necessário para a sobrevivência, mas também como um exercício de precisão e beleza. [v]

 

 

Japão, o charco lamacento

 

“O que se perdeu com Eva

Pelo Vosso ventre retornou,

Aos infelizes cá embaixo

Abristes as portas do Céu.”

 

 

No ano de 1549, desembarca em Kagoshima, Francisco Xavier, acompanhado de missionários portugueses. Lá existia uma comunidade de ocidentais que costumavam andar pelas ruas a cantar salmos religiosos, atraindo a curiosidade e o fascínio dos habitantes locais.

Xavier, impressionado com aquele povo educado e culto, não hesita em elogios : “…pela experiência do país que temos, faço-vos saber aquilo que descobrimos: em primeiro lugar, a gente com a qual temos falado é a melhor que encontramos até agora.”

A cultura do povo japonês faz Xavier começar a traduzir a Bíblia para a língua local, algo que jamais fizera em outros países.

Inicialmente, o trabalho dos missionários teve imenso sucesso. Em Kyoto mesmo, estima-se que mais de 130 mil pessoas foram convertidas à fé católica, número que chegou posteriormente a 300 mil.

Uma das peculiaridades do sucesso inicial do cristianismo no Japão é a ênfase na figura da Virgem Maria e do Menino Jesus. Como sociedade extremamente patriarcal, onde a imagem do pai é carregada de uma aura de disciplina, punição e obediência, a Virgem Maria é aquela que consola, protege e, em sua imensa caridade, representa para uma sociedade estratificada – em que as classes mais baixas, os camponeses, eram constantemente maltratados e punidos por senhores de terras, samurais – um símbolo de caridade e amor.

Endo vai explorar esta questão em seu livro, ao expor o caráter patriarcal de Rodrigues, cujo eventual aprendizado e experiência de humilhação o leva a compreender a profunda necessidade da Graça amorosa naquela sociedade. [vi]

Mas a semeadura do cristianismo teve pouco tempo para germinar e florescer. E a colheita se fez brutal, implacável, e com isso as raízes do cristianismo foram também arrancadas, restando apenas algumas poucas sementes espalhadas, que cresceriam como “ervas daninhas” sob a sombra do totalitarismo da mentalidade japonesa.

Em 1614 o cristianismo é oficialmente banido do Japão, restando apenas pequenas comunidades que sobrevivem graças à prática clandestina nalgumas comunidades próximas a Nagasaki. [vii]

É o início do “Sabado da História” para os cristãos japoneses, que serão perseguidos, torturados, martirizados. Eles que, por sua vez, também fraquejam, acovardam-se, apostasiam.

Eis o fundo histórico do romance de Endo.

 

“O Silêncio”

“O problema do romancista que deseja escrever sobre o encontro de um homem com Deus é como descrever a experiência – que é tanto natural quanto sobrenatural – de forma compreensível e crível para o seu leitor. Em qualquer época isso seria um problema, mas em nossa era é um algo quase insuperável…” [viii]

 Flannery O’Connor

 

“O Silêncio” foi escrito em 1966, e é uma obra que desde sua publicação incomoda, perturba e nos lança a questionamentos dos quais poucos saem imunes.

É um romance que não apenas retrata um período histórico específico do Japão – a perseguição aos católicos no século XVI – mas também nossa diária e constante luta contra nosso ceticismo e nosso abandono. O livro é também uma reflexão sobre os vários “Sábados da História” que se concretizam e se realizam repetidamente: seja na perseguição aos cristãos no Japão medieval, seja nas ruínas das explosões nucleares de Hiroshima e Nagasaki, seja no nosso narcisísistico desespero ocidental.

Todos estes momentos e traumas nos convidam a abandonarmos nossa fé, e como o personagem principal do romance, pisar a fumi-e.[ix]

É justamente durante uma viagem a Nagasaki que Endo irá se deparar com este objeto que será central à sua obra. A visita a um pequeno museu é a gênese de seu romance:

No escuro salão de exposição, o que me fez ficar parado ainda não era o próprio fumi-e, mas a base de madeira que o emoldurava, e que tinha várias pegadas enegrecidas. Era claro, ao olhar para a marca aprofundada, que esta não fora feita por uma pessoa apenas, mas por várias, que sobre ela pisaram. [x]

O livro conta a história do jovem padre Rodrigues, que juntamente com seu companheiro, padre Garpe, partem de Portugal para o Japão, com a missão de continuar o trabalho de evangelização no país, que passa neste momento por uma intensa e brutal perseguição aos cristãos. Os que sobrevivem às torturas são forçados a pisar a fumi-e, em geral, um ícone de bronze que trazia a imagem de Cristo na cruz ou da Virgem Maria. Como forma de identificar os cristãos, as autoridades exigiam – em um rito que se repetia todo ano – que todos os membros de uma comunidade pisassem nestas imagens. Esses sobreviventes eram os apóstatas, os caídos.

É a oportunidade esperada por Rodrigues, tanto para mostrar-se digno de sua fé, como também para poder encontrar seu antigo professor, o missionário Cristovão Ferreira, de quem se diz ter apostasiado diante de torturas inenarráveis. Em seu íntimo, Rodrigues se vê desejar o martírio, pois assim cumpriria sua missão como católico, e também superaria seu antigo mestre.

Desde o inicio do romance, Endo revela a arrogante presunção de Rodrigues, que se revela de modo chocante em uma cena em que, ao olhar-se em uma poça de água, mulambento e afaimado, vê refletida nesta o rosto de Deus. Imagina estar ele a viver o martírio do próprio Cristo. Endo irá desfazer esta imagem e revelar que Rodrigues, como nós, está mais próximo de Judas do que do Ungido.

Ele faz isso ao inserir na história a figura de Kijichiro, personagem construído desde o início para nos causar repulsa e asco, desprezo e rancor, pois ele nada mais é do que uma figura patética e que será responsável direto pela captura de Rodrigues pelos magistrados japoneses.

Curiosamente, é com esta figura patética que Endo se identifica profundamente.

Em cartas e palestras, Endo, ele mesmo, inúmeras vezes adota o nome Kichijiro. Ele representa todos aqueles “caídos da fé”. Ele é orfão, tem um passado traumático e é rejeitado pela comunidade e pela família. Kichijiro é o próprio Endo: é vacilante, esconde suas intenções, incapaz de ser testemunha de uma fé altiva, triunfalista.[xi]

Ainda assim, percebemos na obra de Endo, a “profunda realidade da beleza, a beleza nascida do sacrificio.” [xii]

 

 

A Beleza na Morte

 “Eu olhei além;

As flores não são,

Nem folhas coloridas.

Na praia do mar

Um casebre solitário.”[xiii]

 

O período de perseguição aos cristãos no Japão é marcado inicialmente por torturas, crucificaxões e afins, mas logo as autoridades japonesas compreendem que o martírio, ao invés de diminuir a fé dos fiéis, é na verdade motivo de renovada determinação, chegando mesmo a gerar novas conversões.

De singular percepção, entendem as autoridades que algo havia no martírio cristão similar à tradição japonesa, que via na morte beleza e nobreza; especialmente na ritualização do suícidio, que ganha no seppuku sua maior expressividade.

O rito do seppuku tem suas origens remotas na tradição chinesa da Guerra extremamente ritualizada, com cerimônias e ritos advinhatórios . O ofício de guerrear era voltado não apenas à mera conquista de territórios, mas também ao engrandecimento pessoal, especialmente para uma aristocracia em busca de glória. A derrota era vergonhosa, e a morte por suídicio era uma forma de se recuperar a honra perdida. Mas será no Japão que este macabro rito irá se perpetuar, se refinar.

O suicídio ritualístico não é algo que encontramos apenas na cultura japonesa, mas o que chama atenção no caso é a persistência do rito ao longo dos séculos.

De seu início na era Hein (794-1185) até sua versão apocalíptica nos kamikazes japoneses, chegando até a era moderna com Yukio Mishima, o suicídio é algo arraigado na cultura japonesa.

Em uma cultura que enxerga na morte e no martírio beleza e nobreza, a repressão ao cristianismo dar-se-á menos através do martírio e muito mais através da humilhação pública, na forma da apostasia.

A perseguição aos cristãos no Japão adquire aspectos que antecipam o pior dos regimes totalitários do séc.XX, à epoca do clã Tokugawa. São criados grupos locais com o dever de policiar, denunciar e fazer cumprir o édito que bane os cristãos. Nas comunidades, vizinhos vigiavam vizinhos. O impacto desta mentalidade irá-se arraigar na cultura japonesa de tal forma, que podemos perceber por trás de sua aparente harmonia esse aspecto totalitário.

Makoto Fujimura fala desta característica perturbadora em sua meditação sobre a obra de Endo:

O japonês há muito desenvolveu uma linguagem cultural refinada e um código de conduta educado e honorífico. Por outro lado, qualquer tipo de voz individual que possa perturbar a solidariedade do grupo será banido da conversa pública. Há uma intensa pressão social para se conformar, independentemente da fé ou da perspectiva filosófica. Permanecer em silêncio, ser estoico e ser bom em esconder seus verdadeiros sentimentos e pensamentos tornaram-se as formas aceitas de lidar com trauma e medo.

 Portanto, quando Endo escreve (…) ele não está apenas apontando a realidade histórica da perseguição cristã no Japão; ele também está revelando uma questão mais profunda da cultura japonesa (…) uma cultura de pensar coletivamente, uma cultura que intimida aqueles que não se encaixam. Em vez de fé religiosa, essa cultura insiste que a adesão ao grupo é de maior valor e constrói um código de ética nessa premissa (…). [esta] cultura rejeita não só o cristianismo, mas o pensamento individual também. [xiv]

E é justamente aí que as autoridades japonesas, que agora têm em cativeiro o padre Rodrigues, conseguem dobrar sua fé arrogante. Rodrigues, para sua imensa frustração, não será martirizado. Ao contrário, enquanto os camponeses cristãos passam fome na prisão, Rodrigues é bem alimentado. Cruelmente, este alimento lhe é entregue aos olhos dos campônios famintos. Ele recebe a todo momento roupas limpas, seja para orar ou para viajar, enquanto vemos nos camponeses figuras imundas e fétidas. [xv]

Oferecem ainda a Rodrigues a possibilidade de ter uma esposa e, sendo ele um homem de letras, uma carreira como homem público.

E a última e trágica tentação: continuará Rodrigues a manter sua fé, e com isso ser responsável pelo sofrimento da comunidade cristã que o acolheu e protegeu?

Aqui, Rodrigues finalmente se dá conta de que as autoridades jamais tocarão um dedo nele. E que o martírio lhe será negado.

 

O Silêncio de Deus

“Eu não escrevi um livro sobre o silêncio de Deus; eu escrevi um livro sobre a voz de Deus falando através do sofrimento e do silêncio.” [xvi]

 

O que resta de nossa fé após a traição a Deus? Como meditar sobre nossa fraqueza, nossa falibilidade, nossa covardia?

Será que vivemos nossa cômoda fé como Rodrigues antes de passar por toda a purgação de sua jornada, isto é, arrogantes, triunfantes, convictos em nossa higienizada sociedade?

Ainda assim, quem de nós não é assombrado pelo silêncio de Deus?

Claro que Endo, ao escrever o livro, estava também fazendo sua reflexão sobre sua própria fé, sobre estas dúvidas aqui expostas e que permanecem na mente de todo aquele que procura dialogar com Deus. Precisamos lembrar aqui a imensa coragem de um homem de fé, de um artista, em expor suas dúvidas e medos através da arte. O artista ao escrever um livro, uma peça, um filme, não está criando um dogma. Ele está, antes de tudo, refletindo sobre sua – nossa – humana condição. Um livro como “O Silêncio”demanda de nós, antes de tudo, caridade teológica para com a obra.

O título original que Endo pensou para seu livro era “ O Aroma do Nascer do Sol”, e é seu editor quem decide pelo título “O Silêncio”. Talvez aqui tenhamos uma daqueles momentos em que um título determina não apenas o sucesso comercial de uma obra – o que o livro de Endo definitivamente é – mas também a sua grandeza.

Afinal, caso tivesse mantido o título original pensado por Endo, o livro talvez não deixasse que caíssemos em interpretações tão problemáticas , ambíguas e díspares. Convenhamos que “O Aroma do Nascer do Sol” transmite algo como uma esperança, ainda que tênue, na luz que ilumina nossa escuridão.

Já o título “ O Silêncio”, de cara nos joga na incerteza, nas sombras de uma névoa que parece jamais se dissipar. E que esconde aquilo que se revela apenas nas últimas páginas do livro.

Em sua jornada em busca de glória, martírio e de seu algoz, Rodrigues encontrará apenas a sua própria covardia e fraqueza. Não será na figura oca de seu antigo mestre, Ferreira, que ele irá encontrar respostas ou consolo.

Eis aqui o ponto nevrálgico do livro. Onde todo o drama dos personagens encontra seu clímax desolador.

A cena entre os dois é forte, especialmente porque temos finalmente a presença concreta do Ferreira a se explicar. Mais ainda: Ferreira, ao fim e ao cabo, é a última tentação no caminho de Rodrigues; funciona ali como um agente “satânico” a tentar Rodrigues mais uma vez.

De imensa dor para Rodrigues é a confissão de Ferreira: este apostasiou não por caridade aos camponeses torturados em nome da fé, não por amor ao próximo, não por achar que sua apostasia era um preço menor a se pagar pela suspenção das torturas. Ferreira apostasia porque não mais acredita na Graça divina.

Suas palavras são secas e beiram o logicismo ateísta em toda sua vazia racionalidade:

“Os japoneses nunca tiveram o conceito de Deus. É assim hoje – e sempre será.”

Rodrigues tenta rebater, fala da verdade transcendente do cristianismo e da Igreja, mas Ferreira é categórico em seu pessimismo:

“Os japoneses imaginam um homem belo e sublime – eis o que eles denominam Deus. Chamam de Deus uma coisa que tem a mesma espécie de existência que tem o homem. Mas não é o Deus da Igreja.”

 Desolado, Rodrigues ainda tenta tirar de Ferreira uma última nota de esperança. Ele pergunta ao seu antigo mestre se aquilo fora tudo que aprendera em seus vinte anos nas terras japonesas.

A resposta de Ferreira revela sua tragédia pessoal:

 “Foi.” – “E por isso a missão perdeu o sentido para mim. As raízes da muda de árvore que eu trouxe não demoraram a apodrecer neste charco. E, durante muito temo, eu não soube nem me apercebi disso.”

Eis nas próprias palavras de Ferreira o motivo de sua apostasia. Eis um homem, um católico que não compreende o paradoxo cristão a encontrar na derrota a vitória. Não entende ele o cárater do “Sábado Sagrado”, portanto, sua apostasia é motivada por uma lógica niilista que corrói sua alma. E é esta lógica que Ferreira tenta plantar no coração de Rodrigues.

Muitos admiram a personagem de Ferreria e sua lógica aparentemente perfeita. Esta admiração pelo personagem do Ferreira revela como somos facilmente seduzidos pelo mal em uma de suas forma mais vis, na mutilação de uns dos dons do Espírito Santo que mais nos distingue no meio da Criação – o da Razão –, como somos tentados a nos deixar derrotar da forma mais insidiosa possível, pois trai justamente a própria essência do Cristianismo.

A apostasia de Rodrigues acontece por direta influência das palavras de Ferreira. Ao se ver diante do fracasso de seu professor é que Rodrigues entende seu próprio fracasso.

Mas agora, em seu fracasso, está ele livre de todo triunfalismo, de toda arrogância; agora entende ele que está mais próximo de Judas do que do Cristo.

Se acaso Endo terminasse aqui seu livro – e em algumas traduções mundo afora, editores encerram aqui a narrativa – o livro já poderia figurar entre grandes obras-primas da literatura moderna.

Mas o que torna o livro realmente fiel à tradição da “verdade romanesca” é a ambiguidade com que Endo finaliza a história de Rodrigues no apêndice do livro. Ambiguidade que “O Silêncio” do título reforça.

É na descrição burocrática, seca, dos últimos anos da vida de Rodrigues que Endo se coloca no patamar de autores como Graham Green e Joseph Conrad. [xvii]

 

 Relembranças

 

“Ele a todos nos conheceu e nos amou a todos. Saibamos nesta noite de inverno, de cabo a cabo, do polo tumultuoso ao castelo, da multidão à praia, de olhares em olhares, forças e sentimentos lassos, convocá-lo e vê-lo, e o mandar de volta, e sob as marés e no alto dos desertos de neve seguir suas vistas, seus sopros, seu corpo, seu dia.”[xviii]

 Neste relato final, que muito lembra os últimos dias da vida de outro apóstata, mas um apóstata da poesia, Endo deixa que cada um de nós interprete os últimos anos de vida de Rodrigues de acordo com nossa apreensão e recepção do romance.

Não podemos afirmar com certeza se Rodrigues apostasiou completamente, assim como seu antigo mestre, e os indícios que Endo nos revela são esparsos para podermos afirmar categoricamente que ele manteve sua fé e continuou seu trabalho evangelizador, ainda que à sombra das autoridades, ainda que de forma secreta.

Mas são justamente os indícios, as pequenas migalhas que Endo deixa pelo caminho que tornam a vida de Rodrigues e a de Kichijiro, imensas, belas. A redenção final destes personagens depende portanto, de nossa caridade para com eles.

Aqui cede lugar a visão puramente criticista, e entra o olhar daquele que precisa acreditar no silêncio de Deus.

Um olhar que acredita que Rodrigues encontra a frágil redenção, graças àquele que durante todo o tempo desprezou como um fraco. E que também é aquele que o traiu. Em sua queda, Rodrigues vai encontrar o olhar de Kichijiro.

É esta figura que irá entender – instintiva e profundamente – a tragédia de Rodrigues. Em uma das cenas mais belas do livro, um relutante Kichijiro chama pelo Padre Rodrigues:

“Padre…Padre…”

 Escutando [Rodrigues] à porta uma voz algo familiar, voltou para lá os olhos fundos.

 “Padre, sou eu, Kijichiro.”

 “Não sou mais padre” respondeu em voz baixa, abraçando os joelhos. “Vai-te embora depressa. Vais pagar caro se te acharem aqui.”

 “Mas ainda podeis ouvir minha confissão!”

 

Estas palavras tocam a alma de Rodrigues, e é só então que irá entender sua nova missão, uma que não depende mais de hirerquias, nominações, credenciais; não há então que se falar em recompensas terrenas ou reconhecimento das autoridades.

Rodrigues, suspeitamos, continua seu trabalho evangelizador, provavelmente tendo convertido todos os que com ele moravam. E é justamente na figura de Kichijiro que temos nosso maior indício, sua transformação moral é comovente.

Nas páginas finais de sua obra, já no apêndice do livro – e muitos deixam escapar este momento – é que Endo suspende a névoa dos últimos anos de vida de Rodrigues.

Endo nos conta que, certo dia, Kichijiro foi encontrado de posse de um objeto de adoração cristã, um amuleto com as figuras de São Paulo, São Pedro e Francisco Xavier. Mas, ao ser perguntado sobre como conseguira aquele objeto – provavelmente um presente de Rodrigues – ao invés de negar sua fé novamente e denunciar Rodrigues, Kichijiro diz que um serviçal o havia deixado cair, e ele pegou o objeto e guardou para si. Seus interrogadores insistem em saber se Kichijiro recebeu o objeto de Rodrigues, mas ele nega veementemente esta possibilidade. O até então fraco e vacilante Kichijiro assume sua fé; ele não se acovarda diante de seus inquiridores. Ele é a resposta ao pessimismo de Ferreira, ele é a esperança nascida da lama.

É através dele que Rodrigues pode enfim, deixar florescer no charco lamacento de seu peito a flor de lótus de sua fé, agora nascida, vivida – e compartilhada – no silêncio da Graça.

E isso talvez não seja exatamente o que todos nós podemos esperar neste imenso “Sábado da nossa história”?

 

NOTAS

 

[i] The Sabbath of History, Joseph Ratzinger, pág. 38

[ii] Prerrogativa que não era exclusiva do estado japonês, haja vista o tratamento que receberm os japoneses nos EUA durante a Guerra, com a criação de campos de internamento pelo governo Americano de Franklin Roosevelt.

[iii] Japan’s Faithfull Judas, Part 1, Philip Yancey, in http://www.2think.org/endo.shtml

 

 

[iv] Silence and Beauty, Makoto Fujimura, pág. 38

[v] ibid, pág. 39

[vi] Endo irá explorar este aspecto do amor divino representado por Maria, mas também pela vida do próprio Cristo, em seu relato da vida de Jesus. Ver “The Life of Jesus’.

[vii] Desta perseguição nascerá um dos mais impressionantes – e problemáticos – movimentos cristãos da história: os Kakure Kirishitans, ou Cristãos Escondidos, em tradução literal. Para mais detalhes, ver “In Search of Japan’s Hidden Christians”, de John Dougill.

 

Também importante relembrar aqui a ironia trágica que envolve a cidade de Nagasaki. Em 1945 a maior comunidade cristã está localizada justamente na cidade que será devastada por uma das bombas nucleares lançadas pelos EUA.

[viii] Christian Realism, in Spirtual Writings, Flannery O’Connor, pág. 70

[ix] Fumi-e eram pequenos ícones em bronze, representando Cristo ou a a Virgem Maria, feitos especialmente para serem pisados por todos os membros de uma comunidade. Aqueles que se negavam, eram identificados como cristãos e presos.

 

Para uma cultura profundamente visual como a japonesa, pisar em uma imagem possuía um alto valor simbólico. Era um sinal de submissão à comunidade, mas especialmente para um cristão, era escolher entre Cristo e ser um japonês.

 

Para uma discussão profunda sobre este tema, recomenda-se a leitura do livro de Makoto Fujimura, “Silence and Beauty”.

[x] Nagasaki Pilgrimage with Shusaku Endo, conforme citado por Makoto Fujimura no livro ‘Silence and Beauty”, pág. 36

[xi] Silence and Beauty, Makoto Fujimura, pág. 42

[xii] ibid, pág. 42

[xiii] Sen no Rikyu, in Silence and Beauty, Makoto Fujimura. Arrisquei a tradução deste pequeno haicai.

[xiv] Silence and Beauty, Makoto Fujimura, pág. 105

[xv] Como muito bem aponta Colin Chan Redemer em artigo para The Federalist, estas são justamente as tentações de nossa era moderna. Ver – http://thefederalist.com/2017/02/18/silence-shows-comfort-brilliant-way-pressure-someone-faith/

[xvi] Sushaku Endo, in Silence and Beauty, Makoto Fujimura, pág. 143

[xvii] Aqui devo a Martim Vasques, que em nossas conversas, me chamou a atenção para este aspecto da grandeza de Endo.

 

 

[xviii] “Gênio”, Arthur Rimbaud, in Prosa Poética Completa, trad. Ivo Barroso

A Imaginação Educada

Por uma nova crítica

 

Celebrar a publicação de um livro inédito de Northrop Frye nestas bandas pode parecer exagero, visto que muitos podem se perguntar qual a importância de mais um livro sobre crítica literária – ou mais especificamente, sobre a importância da educação do imaginário – em um país pouco avesso ao hábito da leitura e menos ainda, à análise mais atenta e dedicada a obras literárias.

Mas a publicação de “A Imaginação Educada” é necessária justamento por abrir uma porta para aquilo que podemos chamar de uma “recuperação” do sentido maior da escrita, e por conseguinte, da Arte.

Acostumados que estamos a críticos e criticismos que trafegam dentro de um escopo limitado e, muitas vezes, apequenado ideologicamente, precisamos de autores que tenham a ousadia de enxergar para além de construtos sócio-económicos, análises descontrucionistas, psicologismos variados, etc… afinal, por mais que estes críticos encontrem novos significados em suas obras, ao fim e ao cabo, viciam leitores, outros críticos, autores e portanto, a própria literatura, e assim, colocam a criação literária em uma camisa de força dogmatica.

Afinal, eles “apenas aprenderam dessa maneira”. [i]

E se há um crítico literário que vem nos ensinar uma nova maneira de ler e compreender a literatura, este crítico é justamente o canadense Herman Northrop Frye. Nascido em Moncton, Canadá, Frye vai para Toronto em 1929. Matriculou-se na faculdade de Victoria e, à exceção de 2 anos de estudo na faculdade de Merton em Oxford, permaneceu ligado a faculdade durante todo sua vida.

E lá inicia seus estudos, que nos próximos 30 anos, irão trazer à tona trabalhos excepcionais de crítica literária, educação, linguagem, imaginação, etc.

 

 

Via Espiritual

 Para entendermos a importância da da crítica de Frye, é necessário compreender aquilo que podemos chamar de “via espiritual” no desenvolvimento de seu trabalho como crítico. E há um dado biográfico fundamental muitas vezes neglicenciado na receptividade de sua obra por estas bandas: Frye serviu como ministro ordenado na Igreja Unida do Canadá (Metodista) por 55 anos.

Conforme aponta um dos maiores especialistas na obra de Frye, Robert D. Denham, Frye se considerava um “arquiteto do mundo espiritual”. Em seu livro “Religious Visionary And Architect of the Spiritual World”, Denham revela para nós uma lado do autor de “Anatomia da Crítica” que poucos se interessam hoje em discutir.[ii]

Frye deixa claro que sua intenção como crítico é, de alguma forma, “ajudar em uma tendência para tornar a religião interessante e atraente para muitas pessoas de boa vontade que não se interessam pelo assunto em um primeiro momento.” [iii]

Não à toa, o primeiro livro de Frye é sobre a obra de William Blake, artista e poeta que o atrai, pois nele irá reconhecer a problemática moderna da literatura, i.e. as relações entre o mundo espiritual (cristão), a estética e o ato da escrita. Mais importante, Blake será um “modelo intelectual” para Frye, influenciando-o em aspectos importantes de sua vida e obra até o fim. [iv]

Na opinião de Denham, a religião não era apenas importante para Frye, ela era “central para praticamente tudo o que Frye escreveu, a base sobre a qual ele construiu a enorme superestrutura que era a obra de sua vida.[v]

Esta necessidade de integrar a teologia com a literatura, era algo que Frye entendia não estar limitado apenas ao estudo do cristianismo, mas que também era importante entender como outras tradições se relacionavam com estas questões. Por conta disso, amplia seu interesse para temas como o budismo, taoísmo, gnosticismo – sem o qual o entendimento de Blake e Yeats é praticamente impossível – e o confucionismo, para não mencionar muitas outras formas de pensamento que detectam influências espirituais no mundo visível, como a astrologia, a alquimia, a numerologia.[vi]

Frye entendia que era necessário para o estudioso da literatura, uma abertura para os aspectos teológicos por trás do “eterno ato da criação”. Isso não significava um abandono dos aspectos formais dos estudos, pois estes eram – e são – necessários para a possibilidade de uma “conversação” entre pares, sejam eles “scholars, professores ou estudantes.[vii]

Ensina ele que a literatura não é um punhado de milhares de obras individuais jogadas ao acaso, mas, ao contrário, um universo integrado de formas reconhecíveis. Ele sempre viu uma estreita associação da busca pela disciplina da forma com o grande talento literário, que encontramos nas obras de seus autores preferidos, Spenser, Shakespeare, Milton, Blake, Yeats e Eliot. [viii]

Identificamos na obra de Frye outro aspecto importante de sua postura diante da literatura, da crítica literária. Diz ele que as abordagens que apenas comentam se um autor ou livro é bom ou ruim, limitam a compreensão da literatura e revelam mais da mentalidade do crítico do que do autor em questão. Frye pode ser colocado como um dos casos raros da crítica literária que prezam mais a “especulação” do que ter a palavra final sobre esta ou aquela obra.[ix]

Frye abre com seu trabalho, todo um novo campo de estudos e interpretações da literatura, e o impacto de dois de seus mais importantes livros “Fearful Symmetry” e “Anatomia da Crítica” influenciam toda uma nova geração de críticos. Apesar disso, nos anos subsequentes, com o avanço de novas teorias literarias, menos abertas ao transcendente, ao imponderável, a influência de Frye começa a diminuir cada vez mais dentro dos círculos acadêmicos. Mesmo autores diretametne influenciados por ele, como Harold Bloom, passam a torcer o nariz para o canadense.

Por conta disso, vemos que o nome de Northrop Frye surge hoje como o raro caso de um teórico literário cuja prosa crítica continua a ser lida com interesse e proveito por artistas, poetas, e estudantes de religião, enquanto na academia há um silêncio desdenhoso e ligeiramente desconfortável em relação ao seu trabalho.

E quem perde somos todos, pois um dos aspectos mais interessantes da obra de Frye, é justamente seu esforço em nos fazer perceber a importância da crítica que ele chama de arquetípica não apenas para aqueles interessandos em literatura, mas que abarca também as chamadas “humanidades”. O que Frye está a fazer não é um ataque às diferentes escolas da crítica literária, o que lhe interessa realmente é superar as barreiras entre os métodos, sempre em busca de ampliar o conhecimento sobre a literatura em todos os seus aspectos: mitologicos, educacionais, símbolicos, religiosos.

Diz ele em na conclusão – ou melhor, em sua tentativa de conclusão – de seu mais importante livro, “A Anatomia da Crítica”:

A teoria da crítica abarca as “humanidades” em seu aspecto educacional, de acordo com nosso princípio de que é a crítica e não a literatatura que é diretamente ensinada e aprendida. Por isso, uma sensação de espanto quanto à teoria da crítica é prontamente projetada como uma preocupação acerca do “destino”ou da “condição” das humanidades. A quebra de barreiras dentro da crítica, portanto, teria o efeito a longo prazo de tornar os críticos mais conscientes das relações externas da crítica como um todo com outras disciplinas.”[x]

 

 

Educar a Imaginação

 Meu assunto é a imaginação educada, e a educação é algo que afeta toda a pessoa, não apenas pedaços dela. Ela não se limita a treinar a mente: é um desenvolvimento social e mais também”.” [xi]

                   

Originalmente “A Imaginação Educada” foi elaborada como um programa radiofonico, transmitido por todo o Canadá. Dividido em seis palestras – ou capítulos – Frye irá meditar de forma simples e direta, sobre aspectos que considera essênciais para sua visão. Portanto, temos aqui um Frye livre de pesos acadêmicos, portanto encontramos o autor com toda liberdade que o tom coloquial permite. Mas não se deixem enganar, pois apesar da liberalidade, Frye ainda assim nos entrega profundas meditações sobre a importância da imaginação diante de um mundo desiludido e por vezes, vazio de sentido.

Mais do que apenas uma simples lista de obras canônicas e obrigatórias a serem lidas de forma metódica e estéril, o que Frye oferece é uma visão ampla de um programa de ensino que busca em concordância, ampliar o horizonte intelectual dos alunos. Somente a imaginação pode salvaguardar a nossa herança cultural, e mais, fazer a ponte com outras culturas e visões de mundo, necessárias para uma compreensão maior de nossa humanidade.

Sem esta educação, estamos fadados ao fracasso imaginativo, que leva ao fracasso social. É interessante – e desolador – perceber o quão próximo estamos da triste visão que Frye apresenta em sua última palestra, justamente aquela que trata sobre o fracasso de nossas pretensões.

Nesta última palestra, Frye retoma a história da torre de Babel como o mito organizador utopista, e pior de uma imaginação corrompida pela incapacidade imaginativa. A confusão de línguas em Babel é uma perda de identidade, para Frye, e um fracasso da imaginação. Só uma imaginação forte, ou seja, uma pessoa educada, pode realizar o sonho renascentista de reconstruir o conhecimento das ruínas de Babel.[xii]

As perguntas do autor são tão relevantes à época quanto hoje – o que revela muito de nossa “natureza humana permanente”, que transcende ideologias, aspectos sócio-economicos, etc…

“A literatura parece-me girar em torno do que chamo as preocupações primárias da humanidade, aquelas que têm a ver com a liberdade, com o amor, viver e se manter vivo, juntamente com as ironias de sua frustração, distinta das preocupações secundárias ou ideológicas da política e da religião, para o qual a expressão verbal direta é expositiva e não literária. “[xiii]

Observamos que para Frye a imaginação, especialmente a imaginação literária, funciona como intermediária entre as emoções e o intelecto, ela fornece a base da vida social e comunitária, sem a qual, uma civilização está fadada a ruir.

Mais do que isso, a imaginação é fundamental como anteparo, salvaguarda aos discursos dogmáticos – e hoje, mais do que nunca, não apenas naquele uso da Palavra por regimes totalitários, mas especialmente na manipulação ou submissão da linguagem ao politicamente correto e auma “cultura da reclamação[xiv], vemos a importância da visão de Frye sobre a imaginação. Educar a imaginação é uma necessecidade vital para a própria existência de uma sociedade livre. Mesmo a “crise do vazio” que encontramos no centro da vida moderna, encontra alívio na educaçãoda imaginação.

A imaginação educada nos livra dos clichês, sensibiliza nosso moralismo, faz com que a literatura seja mais do que apenas um jogo de palavras vazias e perdulárias, usadas apenas para um deleite esteticista e vazio de sentido.[xv]

Como dito acima, mais do que apenas um programa dogmático de leituras, Frye propõe todo um novo mode de educação, baseado em alguns principios básicos, que encontramos em Robert D. Denham sua melhor e mais clara exposição.

Dehnam em seu ensaio “Common Cause: Frye on Education”, faz um excelente resumo da visão de Frye para a educação, começando por dizer “…que a poesia, em vez de prosa, deve ser o centro da educação literária porque contém os “ritmos naturais” do pensamento e da expressão; que a compreensão do símile e da metáfora e seus respectivos princípios de analogia e identidade precisam chegar cedo ao processo educativo; que ter uma disposição dedutiva das convenções da literatura (mitos, arquétipos) é essencial não apenas para o estudo da literatura, mas também para a compreensão dos papéis que desempenhamos na sociedade; e que a imaginação, em vez da razão é a faculdade que nos permite aprpreender a realidade como um todo.”[xvi]

 

 

NOTAS

 

[i] Aqui é interessante perceber o quanto o trabalho critico é importante, não apenas na literatura, mas em todos os campos. Charlene Spretnak, em seu livro “The Spiritual Dynamic in Modern Art”, narra sua desilusão mesmo com curadores e especialistas, cegos para a influência espiritual na art. Emu ma exposição sobre o artista Mondrian, que por toda sua vida esteve ligado ao estudo da Teosofia e muitas de suas principais pinturas expressavam princiios teosoficos, Spretnak procuvrava ansiosa pela exposição e ver o que os curadores diziam sobre esta influência. Mas na brochura da exposição havia apenas um rápido comentário sobre este tema e mais nenhuma referência à busca espiritutal de Mondrian.

 

Cerca de um ano depois, ao falar sobre isso com John Wash, diretor do Getty Museum, Spretnak pergunto-lhe sobre isso.

 

A resposta foi – e é – reveladora de um tipo de apequenamento intelectual:

 

“Nós apenas aprendemos dessa maneira”

 

[ii] O interesse de Frye para com a religião não era apenas um capricho intelectual, como ministro da Igreja do Canadá o levava a proferir sermões, realizar casamentos, e mesmo cerimônias fúnebres. Ver “Northrop Frye – Religious Visionary and Architect of the Spiritual World”, Robert D. Denham, pág 3

[iii] “Northrop Frye – Religious Visionary and Architect of the Spiritual World”, Robert D. Denham, pág. 13

[iv] Conforme A.C. Hamilton, citado por Robert D. Denham em seu livro de ensaios sobre Frye, “Word and Spirity”, a influêcia de Blake é ainda mais profunda. Diz ele que podemos identificar quatro influências seminais de Blake:

 

No estilo de vida de Blake forneceu Frye, representando um modelo para sua própria vida; ensinou a Frye a importância do contexto literário para a literatura; ele mostrou a centralidade da Bíblia para Arte Ocidental; e levou Frye a ver a importância da natureza esquemática da poesia e, portanto, da crítica. Mas talvez o mais importante que Blake ensinou para Frye, foi a visão de uma teologia da imanência radical.” in, “Word and Spirity”, pág 18

[v] “Northrop Frye – Religious Visionary and Architect of the Spiritual World”, Robert D. Denham, pág. 03

[vi] Os interesses de Frye naquilo que Denham vai chamar de “espiritualidade esotérica” é amplo demais para ser discutido neste pequeno ensaio. Recomendo que qualquer estudo deste aspecto da obra de Frye, deve obrigatoriamente passer pela leitura do Rober “Northrop Frye: Architect of The Spiritual World”, de Robert D. Denham.

[vii] Timothy Fuller, “A Philosophical Understanding of Education”, in The Voice of Liberal Learning de Michael Oakshott, pág. 31

 

[viii] Interessante notar que acadêmicos mais abertos a uma visão orgânica da cultura, tendem a adotar este ponto de vista “espiritual” em seus trabalhos. Influenciados diretamente por Frye, podemos citar o polemico Harold Bloom , mas mesmo Christopher Ricks pode ser considerado um herdeiro de Frye, especialmente se levarmos em conta sua generosa analise da obra de Bob Dylan sob a perspectiva bíbilica em “Dylan`s Visions of Sin”, onde Ricks traça os caminhos literarios de Dylan, deixando claro o diálogo do Bardo de Minnesota com a literatura universal.

[ix] Interessante notar a disposição de Frye com o que Michael Oakeshott diz sobre a “aventura da conversação” : Não há simpósio ou árbitro; nem mesmo um porteiro para examinar credenciais. Cada participante é tomado pelo seu valor nominal e tudo é permitido e aceito no fluxo da especulação. E as vozes que falam em conversa não compõem uma hierarquia. A conversa não é uma empresa destinada a produzir um lucro extrínseco, um concurso onde um vencedor recebe um prêmio, nem é uma atividade de exegese; É uma aventura intelectual não ensaiada. A conversação é como jogar, seu significado não está em ganhar nem em perder, mas em apostar. “ Michael Oakeshott in “The Voice of Poetry in the Conversation of Mankind”, Rationalism in Politcs, p.198

[x] “”A Anatomia da Crítica””, pág 507

[xi] “A Imaginação Educada”, pág 152

[xii] Relembro aqui o primoroso ensaio de Michael Oakeshott sobre o mito da torre de Babel, que encontramos em seu livro “Sobre a História & outros ensaios”, editado pela Topbooks.

[xiii] “Auguries of Experience”, in “The Eternal Act of Creation”, pág. 7

[xiv] Ver “The Culture of Complaint”, de Robert Hughes, autor que já nos anos 90 antecipa toda uma crise vitimista que se abate sobre as discussões públicas hoje.

[xv] Um visão ampla da educação que vale conhecer é a de Michael Oakshott. Há similaridades entre os dois pensadores, evidentes em livros como “The Voice o Liberal Learning”, de Oakeshott.

[xvi] Robert D. Denham, “Common Cause: Frye on Education”, in Word and Spirity, pág. 268

“One More Time With Feeling”

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O cinema, em seus melhores momentos, pode assim como a grande poesia, examinar sentimentos comuns sobre a realidade e nos prostrar maravilhados diante do mistério da criação.

Este mistério pode revelar-se através da beleza, da bondade, mas também e especialmente, através de um grande trauma que nos arraste e cause uma rachadura em nossa percepção do real.

Existem poucos que conseguem enxergar a espiritualidade negativa do mundo moderno, i.e. perceber nas sombras a presença de Deus. Podemos lembrar aqui os escritores Flannery Connor & Cormac McCarthy na literatura contemporânea – e mais o poeta TS Eliott com sua meditação sobre a desolação, o tempo e a eternidade.

Curiosamente em um dos momentos mais delicados de nosso país, quando a desesperança faz com que o pior de nós se revele a cada dia, e todos somos constantemente arrastados para um buraco aparentemente inescapável de desolação e rancor, a exibição de um filme pode nos ajudar a recuperar um pouco da fé em algo maior e mais profundo, que nos guie para fora de nossa miséria cotidiana.

Falo do filme “One More Time With Feeling”, do diretor australiano Andrew Dominik, e que ficou em exibição em São Paulo, ainda que por um único fim de semana. Um pequeno milagre no circuito comercial atual.

E o que Andrew Dominik faz em seu mais recente filme, em que documenta a criação do último disco de Nick Cave & The Bad Seeds – Skeleton Tree – é nos entregar uma dessas jóias raras do cinema e da arte – uma peça que transcende sua função inicial, em que deslumbramos uma meditação sobre a criatividade, a perda e o trauma da morte, e a busca pelo sentido através do sofrimento.

Ao penetrar no mundo pós-traumático de Cave – central ao filme é a reflexão sobre a morte de um dos filhos do cantor, Arthur, em um trágico acidente – , Dominik revela o quanto domina as ferramentas de seu ofício: o uso das câmeras 3D consegue fascinar no modo como nos leva a compartilhar da intimidade artística e familiar; a escolha pela fotografia em preto e branco é de uma qualidade artística impressionante – a técnica do chiaroscuro de fotógrafos como Francesco Scavullo/Vicent Peters pode ser identificada aqui; e obviamente, como se trata de registrar o processo de gravação de um disco, há uma qualidade sonora magnífica; mas, para além disso, e aqui está o que diferencia o grande artista daqueles apenas beletristas – ou esteticistas – há a profunda meditação sobre o sentido da vida, sobre como conquistar, através do sofrimento, um sentido para a vida.

Aqui não temos um artista seguro, protegido por sua visão estética da vida – como podemos ver em um outro documentário existente sobre Cave, “20.000 Days on Earth” – , muito pelo contrário, o que Dominik revela em seu filme é um artista atormentado por suas visões e que procura escapar de sua própria sina e maldição. Aqui, ainda que de forma bela, percebemos a desolação do homem diante do abismo. Quando Cave descreve o momento em que chora nos braços de um desconhecido em uma rua da cidade de Brighton temos um relance do que está a viver.

E se há algo a proteger Cave de si mesmo e de seus demônios é justamente o companheirismo silencioso de seus amigos de banda, especialmente Warren Ellis, e de sua esposa e filho. Ao atravessarmos a escuridão com Cave, encontramos ao fim a luminosa compaixão que nasce das maiores tragédias e que se o homem não cai derrotado, é por superar a própria dor através da compaixão e caridade para com o próximo.

Em uma das mais belas e tocantes cenas do filme, acompanhamos a esposa de Cave, Susie Bick, e seu filho Earl – irmão gêmeo de Arthur – em visita ao estúdio onde estão a gravar “Skeleton Tree”. Acompanhamos enquanto eles caminham através de uma série de portas e corredores. Quando uma porta final se abre, Bick passa. Earl então estende a mão e toca seu longo cabelo escuro. Um gesto de carinho e proteção, de amor filial, que comove em sua simplicidade e intimidade.

Andrew Dominik revela neste documentário, ou melhor, confirma algo já presente em seus filmes anteriores que sua preocupação vai além de esteticismos ou mero entretenimento, aqui ele se coloca em pé de igualdade com diretores como Clint Eastwood e Terrence Malick; inclusive deste último, podemos relembrar e traçar um paralelo com o filme “O Cavaleiro de Copas”, pois este filme também é uma meditação sobre o sofrimento e a dor.

Relembro aqui o que escrevi sobre o filme de Malick e que pode ser dito também sobre “One More Time…”

“…(nas) palavras de um padre que resgata o sentido do sofrimento, da dor em nossas vidas, assim garantindo a beleza desta nossa realidade. Que se faz realidade concreta e bela, pois fruto dos atos de Deus.

As palavras do padre assombram com profunda sabedoria: ‘Deus mostra seu amor por nós não nos poupando da dor, mas ao enviar a dor…Sofrer o une a algo maior do que você mesmo, maior que sua própria vontade. Tira-o de seu próprio mundo, e o faz encontrar o que está além. Não temos apenas que aguentar pacientemente o sofrimento que Ele nos envia, mas entender estes como bênçãos. Como bênçãos mais preciosas do que a felicidade que desejamos para nós.’

É só a partir desta compreensão do sofrimento e da dor, que nosso cavaleiro pode libertar-se de um mundo falso e retomar sua jornada de volta ao lar.”

E é Mark Mordue – que está a escrever uma biografia de Cave – que em um artigo do The Guardian que melhor capta o momento em que Andrew Dominik transcende a simples narrativa do documentário, elevando-a a uma oração:

“Há uma longa tomada no fim de One More Time With Feeling que sai do estúdio enquanto a canção Distant Sky continua a nos embalar na voz da soprano dinamarquesa Else Torp, cantando que “soon the children will be rising”, embora “this is not for our eyes”. A câmera sobe por sobre as ruas de uma cidade durante a noite, depois mais para cima e para fora na estratosfera como vemos o planeta e o sol. É uma visão – e um presente de Dominik para Cave – que evoca a transmigração de uma alma para a eternidade.”

“One More Time With Feeling” é um daqueles momentos únicos do cinema – e da arte – que nos ajuda a encarar os momentos de desespero e dor, e assim, superarmos nossos próprios traumas ao nos entregarmos a algo maior, mais belo e – quem sabe? – eterno.

Metallica – Hardwired…to the Future!

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Pois bem…e vamos falar do novo disco do Metallica!

Desde as primeiras músicas apresentadas, “Hardwired”, “Moth Into Flame” e “Atlas, Rise” já dava pra sacar que algo de bom estava por vir depois de oito anos de silêncio.

Pois os caras entregam não apenas um dos melhores discos do ano, mas também um dos mais interessantes, empolgantes e criativos discos da carreira da banda.

Superando a tecnicidade fria do “Death Magnetic” e a falta de direção de “St. Anger”, a banda parece ter encontrado o equilíbrio entre força, criatividade e peso. Finalmente temos a chance de ouvir com clareza o baixo mastodôntico de Trujillo, e Hammet entrega solos variados, pulsantes e por mais que ainda seja viciado no pedal wah, está muito mais ousado e Hammet entrega solos variados, pulsantes e por mais que ainda seja viciado no pedal wah, está muito mais ousado, e carrega nos ruídos e distorções harmonizados a riffs destruidores. Lars Ulrich mostra que tamanho de bateria não é documento, e mesmo com uma pegada mais simples, consegue peso e velocidade quando quer. Agora, destaque mesmo é para os riffs monstruosos de Hetfield! Inspirado nas grandes bandas do gênero, Hetfield encontra seus melhores momentos e riffs desde o “Black Álbum”. Sem contar que sua voz nunca soou tão bem como neste disco.

Outro ponto importante e de destaque do disco são as letras: temas clássicos revisitados como em “Dream No More” e “Am I Savage?” ; a fama e suas armadilhas “Moth Into Flame”; o fracasso das utopias e o horror totalitarista em “ManUNkind” e na espetacular “Spit Out the Bone” ; a “girardiana” “Here Comes Revenge”; e as surpreendentes “Halo on Fire” e “Now That We’re Are Dead”, esta última, uma das melhores letras da pena de Hetfield, especialmente pelo seu tom “cristão”:

“When darkness falls, may it be
That we should see the light
When reaper calls, may it be
That we walk straight and right

When doubt returns, may it be
That faith shall permeate our scars
When we’re seduced, then may it be
That we not deviate our cause”

Das doze músicas do disco, diria que apenas “Confusion” não me agradou totalmente, apesar de ter uma baita letra, a música se arrasta por tempo demais. Mas os destaques são o que interessa, e começamos com “Spit Out the Bone” , música que poderia fazer parte de qualquer disco da fase “mitológica” da banda; “Dream no More”, clássica, pesada, encorpada; “Halo on Fire”, uma das minhas preferidas dos disco, especialmente pelas variações entre jazz, bossa nova e hard rock, sem contar os dois minutos finais, que são a pura essência do heavy metal! ; “ManUNkind” pela pegada “sabbathiana”, tanto no som quanto na voz de Hetfield e finalmente, “Now That We’re Are Dead”, música que gruda na cabeça desde os primeiros instantes com groove, peso, e puro hard rock.

Depois de mais de 30 anos na estrada, o Metallica encontra novamente a alegria de ser uma banda coesa, que não se contenta em fazer mais do mesmo e ousa se arriscar por caminhos novos. É o primeiro disco em muitos anos em que a banda não precisa provar nada, nem que consegue ser maior do que um disco (o Black Álbum), ou que ainda é relevante (Death Magnetic). Se DM é um album muito bom, mas que aponta para o passado…Hardwired tem alicerces clássicos, mas aponta para o futuro da banda, mais pesada, lenta e ao mesmo tempo, solta, tranquila em suas escolhas. E como disseram em recente artigo na NPR, se a banda não soa aos ouvidos tão criativa assim, foi por conta da própria força da banda em seus anos de estrada, que forçaram e romperam os limites entre o heavy metal e música pop.

Baita disco! Metallica still kicks you heavy, baby!!

“The Crown”

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Uma família no trono é uma idéia interessante. Ela reduz o orgulho da soberania ao nível da vida mesquinha…Assim a família real dulcifica a política pela adição de eventos agradáveis e bonitos. Ela introduz fatos irrelevantes no negócio do governo, mas são fatos que falam para o “coração dos homens”, e encantam seus pensamentos.

Walter Bagehot – “The English Constitution”

Desde as primeiras imagens divulgadas, sabíamos que “The Crown” seria uma das séries mais belas – e caras – já produzidas pela Netflix, mas para nossa felicidade e supresa, a série vai muito além de apenas uma “soap-opera” cheia de futricas e escândalos sobre a família real inglesa.

“The Crown” apresenta em sua primeira temporada, um estudo sobre política e a monarquia, sobre o conservadorismo e aquilo que devemos preservar em uma boa sociedade, sobre religião e a necessidade da “imaginação virtuosa” no mundo real.

O que seu criador, Peter Morgan – roteirista de alguns dos melhores filmes sobre o fazer político – tais como “Frost/Nixon”, “O Último Rei da Escócia” e especialmente “A Rainha” (a ponta do iceberg de sua admiração pela rainha Elizabeth II) – conseguiu criar nesta primeira temporada é magistral, belo e que não tem medo de mostrar aquilo que se quer permanente na política, mais ainda, na vida.

Logo no primeiro episódio da série, encontramos o momento em que o George VI, – interpretado com nobreza estóica por Jared Harris (Mad Men/Lany Price) pai da futura rainha – é desenganado pelos médicos e tem poucos meses de vida devido a um cancêr de pulmão avassalador.

O ponto chave, que revela o tom em que a série ira transcorrer, ocorre quando em uma celebração natalina, a família real recebe os súditos locais e o rei é presenteado com uma coroa de papelão ao som de uma canção natalina– “The Bleak Midwinter” – e o rei, com lágrimas contidas em seus olhos, junta-se a cantar:

“What can I give Him,

Poor as I am?

If I were a shepherd

I would bring a lamb;

If I were a wise man

I would do my part;

Yet what I can, I give Him –

Give my heart.”

aqui temos o homem que já se sabe morto, cuja realeza se dobra diante do destino final, e que reconhece ser apenas um pálido reflexo do rei dos reis, cena que revela de modo elegante, sutil, o elemento sacrificial por baixo de toda pompa real.

A partir daí, entendemos que mais do que apenas uma série sobre política, ou sobre a família real, temos a ousada decisão do seu criador de conduzir a história em passos morosos, mas não modorrentos, deixando que as sutis teias políticas e amorosas se entrelacem, revelando a intrigante perenidade da monarquia (e da Constituição) inglesa.

E para tal tarefa, a escolha do elenco foi precisa, ousada e surpreendente, especialmente na escolha do americano John Lithgow para o papel de Winston Churchill, que interpreta o maior primeiro-ministro inglês em toda sua pretensão e pompa, mesquinhez e sabedoria –  revelando um personagem ao mesmo tempo mais humano e grandioso. Também é uma forma de mostrar a tentação “fáustica” que acomete os líderes do executivo em relação à temperança do monarca. Este retrato de Churchill, que pode incomodar os mais ardorosos defensores da mitologia, se justifica especialmente no nono episódio (Assassinos) , com o encontro entre Churchill e o artista plástico Graham Sutherland (Sephten Dillan/Stannis Baratheon) e onde eles discutem em delicioso diálogo a verdadeira função da arte: ser aquela que revela a verdade e não apenas a ilusão pomposa e vazia de cargos e pretensões.

Outro personagem que prende nossa atenção é a do “meio-rei”, Edward, irmão mais velho de George VI e que abdicou do trono em troca do “verdadeiro amor”. Alex Jennings, que interpreta Edward, nos presenteia com uma interpretação tocante deste personagem enganado pela ilusão romântica e que se apequenou diante da história, e que ostenta uma vida burguesa e ressentida. Seus comentários sobre a coroação da rainha revelam toda sua pequenez – e majestade – ao descrever para seus amigos o momento da unção divina do monarca, que não pode ser testemunha de “olhos mortais”.

Mais ainda pode ser dito sobre estas meditações sobre o poder – e sobre a monarquia e sua ligação direta como sendo aquilo que é “permanente” em épocas de conflito e progressismo revolucionário – e que os criadores não se acanham em mostrar desde o primeiro episódio, especialmente em dois momentos: quando a rainha-mãe ensina à neta, agora “A Rainha”, que a monarquia vem diretamente de um comando divino, que é um “ato de Deus”(episódio 4); e no sétimo episódio – “Scientia Potentia Est” – onde somos convidados a testemunhar a educação de um governante, sendo aqui onde encontramos as reflexões sobre a constituição inglesa de Walter Bagehot  (e como ensina Roger Kimball na sua preciosa introdução para o livro “Physics and Politics”, a pronuncia do sobrenome de Bagehot é “badge-it”).

O elenco gira em torno da atriz Claire Foy no papel da jovem rainha – em interpretação que equilibra com maturidade anseios e desilusões, poder e graça, humildade e submissão – e é conduzido com maestria pelos diretores através da paisagem britânica e dos esplendorosos edifícios e castelos do poder – mas também em turnês pela Commonwellth (por sinal, subentendia na série esta a ideia de que pertencer ao Imperio Britânico não era lá uma má ideia…), e especialmente através dos labirintos da família real.

A busca por equilibrar a função de poder moderador, que tem como principal função “nada fazer”, com os laços fraternos que devem manter a família unida, como força e modelo daquilo que deve sempre “permanecer”, é onde encontramos os principais conflitos da jovem rainha em seus primeiros anos de reinado. E ao mostrar em detalhes a “educação” da Rainha Elizabeth, Peter Morgan está também a nos educar.

Suntuosa, elegante, e produzida com esmero, “The Crown” é, finalmente, um acerto preciso da Netflix.

Requiem para um filho – Skeleton Tree

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Em 1975, Bob Dylan respondia ao comentário de um radialista que, empolgado, falava como havia gostado de seu disco “Blood on the Tracks” – um dos discos mais pessoais do cantor, cheio de alusões a um casamento fracassado e seus demónios interiores. “Muitas pessoas me dizem que gostaram do disco”, Dylan respondeu. E continuou, “É difícil pra mim, imaginar pessoas gostando deste tipo de dor.”

Pois bem…

Madrugada do dia 09 de Setembro. O novo disco de Nick Cave & The Bad Seeds, “Skeleton Tree” já está disponível nos principais serviços de streaming da internet. Para os sortudos do primeiro mundo, é possível ainda assistir o documentário dirigido por Andrew Dominick, “One More Time With Feeling”, nos cinemas.

Aqui, ouço na madrugada pela segunda, terceira vez, o disco.

Confesso que me sinto incapaz de comentar algo digno sobre este último trabalho de Cave (e de seu parceiro, Warren Ellis). Mas ao mesmo tempo, é preciso articular sentimentos e impressões.

O que dizer de uma obra escrita sob o impacto de uma tragédia pessoal avassaladora? Para quem não sabe, um dos filhos de Cave morreu no fim de 2015 com apenas quinze anos de idade. Portanto, se comento algo aqui, sei que as palavras não farão justiça ao disco.

A partir deste ponto – a morte de Arthur Cave – Nick Cave e Warren Ellis tecem não apenas um disco, mas um Requiem que nos prende pela garganta, derruba, para no fim nos deixar de joelhos diante de um Deus distante, mas ainda lá.

O disco começa com um tom sombrio, pesado, mesmo a esperança de renovação é sombreada pela tragédia – “Jesus Alone” é a canção que abre o disco e dá o tom para as primeiras canções, que lidam diretamente com o desespero e a dor da perda: “You’re a distant memory in the mind of your creator, don’t you see?” ( https://www.youtube.com/watch?v=9iGxoJnygW8 )

Mesmo assim, nada nos prepara para canções como “Girl in Amber”, “Anthrocene”, “I Need You” e “Skeleton Tree”.

Cave se despe de qualquer ego, de qualquer máscara. Aqui não há um personagem a encarnar tipos sombrios – característico de sua obra – , mas o próprio homem despido até os ossos de qualquer fantasia ou persona.

A dor em sua alma faz sua voz quase desaparecer e se esconder em meio a sussurros, sombras e sintetizadores. Em “I Need You”, há tanta desesperança e solidão, que precisei parar um pouco para respirar novamente. (https://www.youtube.com/watch?v=BAMZYpZi_M4 )

E na canção mais tocante do disco, “Distant Sky”, Cave, devastado, quase sem voz, tem a lhe acompanhar a soprano Else Torp. Somente assim, através da suave e maternal voz feminina, conseguimos perceber a réstia de esperança que o sustém.

Se é possível gostar deste tipo de dor? Sim. Graças à generosidade artística de homens como Dylan, Cave, é possível. E devemos reconhecer que transformar a dor em arte, em beleza, não é para qualquer um. É necessário a chama criadora a iluminar, como uma vela na escuridão, a noite escura da alma.

Não apenas o melhor disco do ano, mas um dos discos mais belos da história da música.

Obrigado, Mr. Cave.

“Let us go now, my only companion
Set out for the distant skies
Soon the children will be rising, will be rising
This is not for our eyes”.

A Peregrinação de Terrence Malick

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Terrence Malick é um nome único no cinema atualmente. Poucos diretores na história do cinema são tão pessoais em suas obras, que apenas algumas cenas já revelam o nome por trás da obra.

Isto pode ser uma benção ou uma maldição, especialmente se você não cede aos apelos de um público – e crítica – preguiçoso, indolente e mesquinho.

O diretor americano, assim como T.S. Eliot, é dono de uma voz única, tão única que inimitável, tão única, que hermética em sua simplicidade, que engana os “intelectuais, porém idiotas”, na feliz – e sarcástica – expressão de Nassim Taleb.

É fácil cair na armadilha de enxergar seus filmes, especialmente após o monumento artístico que é “The Tree of Life” (2011), como meras repetições monocórdicas, belas, mas insípidas.

Isto aconteceu com “To the Wonder” (2012) e especialmente com seu mais recente filme, “The Knight of Cups” (2015).

Lendo as críticas feitas, percebemos que não é um problema do diretor, e sim da crítica, que se ossificou, que não consegue enxergar para além do que lhe é apresentado. Não conseguem enxergar o todo, a unidade escondida por trás de imagens – aparentemente aleatórias e desconexas. Vivem uma vida de danação, pois como diz um dos personagens principais do filme: “os pedaços da sua vida são soltos, nunca se encaixam em um sentido, estão jogados por aí’.

E assim, ao lermos certas críticas, percebemos que estas revelam bem mais sobre a desordem interior dos críticos do que qualquer coisa!

“The Knight of Cups” é o terceiro filme da anamnese que Malick faz da sua vida. Dos três filmes, é o mais assustador, o mais sombrio, o mais angustiante. Se em “The Tree of Life” e “To the Wonder” meditamos sobre o amor de Deus – seja este expresso através da família ou por Eros – o encontro de duas almas – em “The Knight of Cups”, Malick nos faz atravessar o reino onde esquecemos quem somos. Aqui o que interessa a Malick é mostrar como um homem pode perder sua alma, como ao não ancorar sua vida em fatos reais, concretos – como a coragem para ter e criar uma família – pode arrastar mesmo o mais “nobre cavaleiro” e fazer com que este esqueça sua mais preciosa missão: resgatar sua alma para Deus.

Para tal, Malick usa dos artificios das novas tecnologias das câmeras digitais – recurso que utiliza aqui de forma ainda mais radical – para construir sua narrativa, que, apesar de semelhante, é completamente diversa em termos de uso de cores e sons, dos seus últimos dois filmes. Não podemos negar que há uma unidade estética nos filmes, mas que são filmes com identidade própria – assim como as óperas do “Ciclo do Anel” de Wagner, são únicas e unas ao mesmo tempo.

Não há aqui a leveza inocente que encontramos em “A Árvore da Vida” e nem as cores de um amor melancólico e outonal de “To The Wonder”. Em “The Knight of Cups”, Malick e seu diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, trabalham em um clave gélida, onde as imagens são marcadas por uma frieza que revela toda artificialidade em que o personagem central, Rick (vivido por Christian Bale) transita. Vale ressaltar o trabalho magistral de Lubezki, que aqui encontra um diretor à altura de seu talento, pois não há imagem sobrando – ou artificial – tudo o que vemos e ouvimos ajuda na condução da narrativa, nos conta a história. Não há aqui exibicionismo vazio, esteticista.

Neste filme encontramos Rick, escritor de comédias a transitar em um mundo onde ele pode ser quem ele quiser, pois é o que “as palmeiras prometem”.

Vivendo neste mundo onde nem mesmo a Terra oferece segurança – afinal, tremores abalam a cidade e helicópteros voam o tempo todo a resgatar mortos e feridos – Rick se deixa levar pelo seu desejo por mulheres, homens de negócios o corrompem, cafetões de luxo oferecem festas pagãs, e o próprio “Estrela da Manhã” oferece seus préstimos ao escritor.
Neste mundo irreal, Rick parece sofrer de um crônico “writer`s block”, e passa seus dias entre festas que fariam inveja a Bojack Horseman ou a caminhar por entre cenários artificiais dos estúdios de cinema.

Mas é também nesta realidade que o personagem de Bale irá encontrar – ou será resgatado por – aqueles que, aos poucos, vão mostrar para ele que há algo para além do dinheiro, além das mulheres e da fama fácil. Mas tais ensinamentos não são fáceis de serem aceitos. É preciso reconhecer os erros da própria vida: a raiva e o ressentimento de seu pai, o egoísmo que arruinou seu casamento, a destruição de um casamento alheio, e a dor de ver um irmão se auto-destruir e nada fazer.

O filme poderia cair em uma interpretação gnóstica, pois a referência à “pérola perdida”, tem inspiração no poema “O Hino da Pérola”,  um texto apócrifo do Novo Testamento. Neste poema, nossas almas estão perdidas neste mundo material e esquecemos nossa verdadeira origem.

Mas esta interpretação é posta abaixo pelas palavras de um padre que resgata o sentido do sofrimento, da dor em nossas vidas, assim garantindo a beleza desta nossa realidade. Que se faz realidade concreta e bela, pois fruto dos atos de Deus.

As palavras do padre assombram com profunda sabedoria: “Deus mostra seu amor por nós não nos poupando da dor, mas ao enviar a dor…Sofrer o une a algo maior do que você mesmo, maior que sua própria vontade. Tira-o de seu próprio mundo, e o faz encontrar o que está além. Não temos apenas que aguentar pacientemente o sofrimento que Ele nos envia, mas entender estes como bênçãos. Como bênçãos mais preciosas do que a felicidade que desejamos para nós.”

É só a partir desta compreensão do sofrimento e da dor, que nosso cavaleiro pode libertar-se de um mundo falso e retomar sua jornada de volta ao lar.

Malick talvez seja um dos diretores mais corajosos da história do cinema, pois poucos teriam a coragem de expor de forma tão explicita – ou elíptica – os pecados de sua vida de forma tão transparente, tão aberta. Em seus últimos filmes, Malick é tão simples e pungente, tão arrebatador e verdadeiro, que sentimos estar diante não apenas de uma obra de cunho estético, mas de simples e belas orações direcionadas a Deus.

 

A Mentalidade do Subsolo

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Se vocês acham que a crítica que vem do subsolo é moda recente, que nasceu com o surgimento da internet e especialmente das mídias sociais, é melhor repensar tal achismo.

Vejam que mesmo Machado, o nosso Bruxo do Cosme Velho, foi alvo de críticas rasteiras, mesquinhas e birrentas de um seu lá desafeto. Tudo por conta de certos poemas mal ajambrados e caducos já no nascedouro, escritos pelo sergipano Silvio Romero.

Leiam cá abaixo, a crítica de Romero a Machado, escrita pelos idos de 1897.

Na medida que avancem no texto, ludicamente exercitem o arraigado ressentimento de suas almas: substituam o nome do Bruxo por aquele seu atual e mais evidente contemporâneo, o desafeto intelectual que impunimente ousa roubar os louros – ainda que pífios – do sucesso editorial. Vejam se não cai como uma luva puída a tal crítica. Eis, em toda sua graça ressentida, a mentalidade do subsolo.

Facilitando o exercício, já deixo em branco os trechos no texto onde Silvio, o Romero, escreveu o nome de Machado. Assim é só lançar o comando CTRL+C, copiar algum trecho do livro atualmente escrito que tanto te incomoda e avacalhar, com todo despudor característico dos medíocres, aquele que tanto lhes causa inveja.

Inté!

“O estilo de ____________, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivace, nem rútilo, nem grandioso, nem eloquente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente, do vocabulário e da frase. Vê se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da linguagem.
___________ repisa, repete, torce e retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão dum tal ou qual tartamudear. Esse vezo, esse sestro, tomado por uma cousa concienciosamente praticada, elevado a uma manifestação de graça e humour, era o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra.
É abrir ao acaso qualquer livro do prosador ________. Seja o mais antigo de seus volumes de contos, e logo na primeira página:

*aqui copie aquele trecho da orelha ou da contracapa que tanto fazem doer os seus intestinos gramaticais. A crítica do sergipano continua (in)válida e atual, ainda que cheire mal.*

Percebe-se que não há nativa fluência na língua, nem movimento nas idéias; é alguma cousa que não vem de fonte copiosa e precípite, porém que escorre docemente como um veio pouco abundante, posto que límpido e suave. É que tal essencialmente é o espírito do romancista. Pouco vasto, possui em alto grau a facilidade da reflexão. Com um punhado de idéias pouco extensas, com um vocabulário que não é dos mais ricos, faz muitas e repetidas voltas em torno dos fatos e das noções que eles lhe deixam na inteligência, orientada por um imperturbável bom-senso, que lhe supre a imaginação e ajuda a observação que não deixa de ser notável. O cultivo dos bons mestres da língua forneceu-lhe certas formas de construção e de frase que lhe imprimem ao estilo a graciosidade da correção e apuro gramatical, na falta de outras qualidades mais brilhantes.”

Na foto, o Bruxo do Cosme Velho. Que não dava a mínima para as críticas e continuou a escrever aqueles que seriam os mais importantes livros de nossa literatura, fundou a ABL e teve amigos como Joaquim Nabuco. Continua lido – ainda que e forma equivocada – enquanto o tal sergipano é nota de rodapé, chistosa, do fluminense. Eis o destino – e inferno particular – dos ressentidos.

A Odisséia de Dory

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O mais novo filme dos estúdios Disney/Pixar é uma grata e emocionante surpresa.

Antes de mais nada, uma confissão: sou fã dos desenhos clássicos da Disney, de “Branca de Neve” a “Bernardo e Bianca”, de “Aristogatas” a “Rei Leão”, sempre me encantei com os universos criados pelos artistas que trabalhavam para o genial Walt Disney.

O mesmo com os estúdios Pixar, que desde “Toy Story”, me conquistaram completamente – e chamaram a atenção do conglomerado Disney, criando assim uma das maiores parcerias do mundo do entretenimento.

O sucesso dos filmes Disney/Pixar tem como base, como fundamento, narrativas que tratam de temas caros a todos os “contadores de historias” que ousaram contar aventuras e desventuras. De Homero aos Irmãos Grimm, de Ovídio a Tolkien, de George RR Martin aos pais e mães que narram pequenos contos para seus filhos na hora de dormir, algo sempre os une: ensinar que em um mundo sombrio, desolador e que nos assusta o tempo todo com a deslembrança, há algo mais profundo e real que nos sustenta, ampara e conduz.

No começo do filme, somos apresentados à pequena Dory e seus pais, que tentam educar a pequena peixinha a se orientar no mundo, especialmente por ela sofrer de “perda de memória recente” – curiosamente, um dos melhores filmes de Christopher Nolan, “Memento” traz um personagem que sofre deste mal – e precisar de todo cuidado para conseguir sobreviver no mar.

A preocupação de seus pais, faz com que Dory procure consolar estes com um presente, uma concha roxa, mas ao tentar levantar a concha, ela é arrastada pela correnteza e vai parar em alto mar. Ela está sozinha e assustada, e com seu problema de perda de memória, logo esquece de seus pais, o maior medo da peixinha. É a Dory que encontramos, junto com Marlin e Nemo, no primeiro filme.

Símbolo central no filme, as conchas são “um tesouro submarino misterioso, em formas belas, por vezes simétricas, muitas vezes estriadas e espraiadas, revelando estágios de crescimento. As cavidades de uma concha são reminescentes da espiral sagrada, do labirinto e do centro.” São assim, símbolos de nossa vida interior, mas também de delicada segurança familiar.

Dory, esquecida de seus pais, vive agora uma vida “normal” com Marlin e Nemo: ela ajuda na escola dos peixinhos, diverte-se com canções e vive sempre a nadar, cercada por amigos que a ajudam a “não esquecer”. Mas algo se rompe dentro dela – por sinal, uma concha quebrada na tradição cristã significava a liberdade da alma – e com isso, lembranças de seus pais começam a ressurgir: as primeiras brincadeiras, músicas, o caminho de casa e o carinho e amor de seus pais.

Ao redescobrir estas lembranças, Dory sente algo que estava soterrado em meio às deslembranças de sua vida: a existência de sua família. É então que ela decide atravessar o oceano para reencontrar seus pais, suas origens, sua Ítaca. Para tal, ela precisa acessar suas memórias mais profundas, redescobrir aquilo que podemos identificar como aquela “disposição conservadora” , de que fala Oakshott, que é inerente a todos nós. Aquilo que preservamos quando tudo parece perdido, pois é a memória a grande depositaria de nossas tradições. Sem a memória, a criatividade, a imaginação, nada mais é do que fogo-fátuo.

Obviamente a odisseia da pequena Dory é cheia de aventuras, suspense, excelentes piadas – Hank, o “septopus” rouba a cena em diversos momentos – mas o momento central do filme é de arrancar lágrimas até dos mais empedernidos marmanjos. Momento que equilibra de forma magistral esperança, medo, culpa e amor de forma bela, delicada e emocionante.

“Procurando Dory” é uma pequena obra prima da narrativa, destas que nos fazem encontrar o caminho de volta para casa.

p.s. o filme tem uma divertida cena pós-creditos!

Dionisius Amendola
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“Advice for Geraldine on her Miscellaneous Birthday” – by Bod Dylan

“stay in line. stay in step. people
are afraid of someone who is not
in step with them. it makes them
look foolish t’ themselves for
being in step. it might even
cross their minds that they themselves
are in the wrong step. do not run
nor cross the red line. if you go
too far out in any direction, they
will lose sight of you. they’ll feel
threatened. thinking that they are
not a part of something that they
saw go past them, they’ll feel
something’s going on up there that
they don’t know about. revenge
will set in. they will start thinking
of how t’ get rid of you. act
mannerly towards them. if you don’t,
they will take it personal. as you
come directly in contact face t’ face
do not make it a secret of how
much you need them. if they sense
that you have no need for them,
the first thing they will do is
try t’ make you need them. if
this doesn’t work, they will tell
you of how much they don’t need
you. if you do not show any sadness
at a remark such as this, they
will immediately tell other people
of how much they don’t need you.
your name will begin t’ come up
in circles where people gather
to tell about all the people they
don’t need. you will begin t’ get
famous this way. this, though, will
only get the people who you don’t need
in the first place
all the more madder.
you will become
a whole topic of conversation.
needless t’ say, these people
who don’t need you will start
hating themselves for needing t’ talk
about you. then you yourself will
start hating yourself for causing so
much hate. as you can see, it will
all end in one great gunburst.
never trust a cop in a raincoat.
when asked t’ define yourself exactly,
say you are an exact mathematician.
do not say or do anything that
he who standing in front of you
watching cannot understand, he will
feel you know something he
doesn’t. he will react with blinding
speed and write your name down.
talk on his terms. if his terms
are old-fashioned an’ you’ve
passed that stage all the more easier
t’ get back there. say what he
can understand clearly. say it simple
t’ keep your tongue out of your
cheek. after he hears you, he can
label you good or bad. anyone will
do. t’ some people, there is only
good an’ bad. in any case, it will
make him feel somewhat important.
it is better t’ stay away from
these people. be careful of
enthusiasm…it is all temporary
an’ don’t let it sway you. when asked
if you go t’ church, always answer
yes, never look at your shoes. when
asked you you think of gene autry
singing of hard rains gonna fall say
that nobody can sing it as good as
peter, paul and mary. at the mention
of the president’s name, eat a pint of
yogurt an’ go t’ sleep early…when
asked if you’re a communist, sing
america the beautiful in an
italian accent. beat up nearest
street cleaner. if by any
chance you’re caught naked in a
parked car, quick turn the radio on
full blast an’ pretend
that you’re driving. never leave
the house without a jar of peanut
butter. do not wear
matched socks. when asked to do 100
pushups always smoke a pound
of deodorant beforehand.
when asked if you’re a capitalist, rip
open your shirt, sing buddy can
you spare a dime with your
right foot forward an’ proceed t’
chew up a dollar bill.
do not sign any dotted line. do not
fall in trap of criticizing people
who do nothing else but criticize.
do Not create anything. it will be
misinterpreted. it will not change.
it will follow you the
rest of your life. when asked what you
do for a living say you laugh for
a living. be suspicious of people
who say that if you are not nice
t’ them, they will commit suicide.
when asked if you care about
the world’s problems, look deeply
into the eyes of he that asks
you, he will not ask you again. when
asked if you’ve spent time in jail,
announce proudly that some of your
best friends’ve asked you that.
beware of bathroom walls that’ve not
been written on. when told t’ look at
yourself…never look. when asked
t’ give your real name…never give it.”