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“One More Time With Feeling”

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O cinema, em seus melhores momentos, pode assim como a grande poesia, examinar sentimentos comuns sobre a realidade e nos prostrar maravilhados diante do mistério da criação.

Este mistério pode revelar-se através da beleza, da bondade, mas também e especialmente, através de um grande trauma que nos arraste e cause uma rachadura em nossa percepção do real.

Existem poucos que conseguem enxergar a espiritualidade negativa do mundo moderno, i.e. perceber nas sombras a presença de Deus. Podemos lembrar aqui os escritores Flannery Connor & Cormac McCarthy na literatura contemporânea – e mais o poeta TS Eliott com sua meditação sobre a desolação, o tempo e a eternidade.

Curiosamente em um dos momentos mais delicados de nosso país, quando a desesperança faz com que o pior de nós se revele a cada dia, e todos somos constantemente arrastados para um buraco aparentemente inescapável de desolação e rancor, a exibição de um filme pode nos ajudar a recuperar um pouco da fé em algo maior e mais profundo, que nos guie para fora de nossa miséria cotidiana.

Falo do filme “One More Time With Feeling”, do diretor australiano Andrew Dominik, e que ficou em exibição em São Paulo, ainda que por um único fim de semana. Um pequeno milagre no circuito comercial atual.

E o que Andrew Dominik faz em seu mais recente filme, em que documenta a criação do último disco de Nick Cave & The Bad Seeds – Skeleton Tree – é nos entregar uma dessas jóias raras do cinema e da arte – uma peça que transcende sua função inicial, em que deslumbramos uma meditação sobre a criatividade, a perda e o trauma da morte, e a busca pelo sentido através do sofrimento.

Ao penetrar no mundo pós-traumático de Cave – central ao filme é a reflexão sobre a morte de um dos filhos do cantor, Arthur, em um trágico acidente – , Dominik revela o quanto domina as ferramentas de seu ofício: o uso das câmeras 3D consegue fascinar no modo como nos leva a compartilhar da intimidade artística e familiar; a escolha pela fotografia em preto e branco é de uma qualidade artística impressionante – a técnica do chiaroscuro de fotógrafos como Francesco Scavullo/Vicent Peters pode ser identificada aqui; e obviamente, como se trata de registrar o processo de gravação de um disco, há uma qualidade sonora magnífica; mas, para além disso, e aqui está o que diferencia o grande artista daqueles apenas beletristas – ou esteticistas – há a profunda meditação sobre o sentido da vida, sobre como conquistar, através do sofrimento, um sentido para a vida.

Aqui não temos um artista seguro, protegido por sua visão estética da vida – como podemos ver em um outro documentário existente sobre Cave, “20.000 Days on Earth” – , muito pelo contrário, o que Dominik revela em seu filme é um artista atormentado por suas visões e que procura escapar de sua própria sina e maldição. Aqui, ainda que de forma bela, percebemos a desolação do homem diante do abismo. Quando Cave descreve o momento em que chora nos braços de um desconhecido em uma rua da cidade de Brighton temos um relance do que está a viver.

E se há algo a proteger Cave de si mesmo e de seus demônios é justamente o companheirismo silencioso de seus amigos de banda, especialmente Warren Ellis, e de sua esposa e filho. Ao atravessarmos a escuridão com Cave, encontramos ao fim a luminosa compaixão que nasce das maiores tragédias e que se o homem não cai derrotado, é por superar a própria dor através da compaixão e caridade para com o próximo.

Em uma das mais belas e tocantes cenas do filme, acompanhamos a esposa de Cave, Susie Bick, e seu filho Earl – irmão gêmeo de Arthur – em visita ao estúdio onde estão a gravar “Skeleton Tree”. Acompanhamos enquanto eles caminham através de uma série de portas e corredores. Quando uma porta final se abre, Bick passa. Earl então estende a mão e toca seu longo cabelo escuro. Um gesto de carinho e proteção, de amor filial, que comove em sua simplicidade e intimidade.

Andrew Dominik revela neste documentário, ou melhor, confirma algo já presente em seus filmes anteriores que sua preocupação vai além de esteticismos ou mero entretenimento, aqui ele se coloca em pé de igualdade com diretores como Clint Eastwood e Terrence Malick; inclusive deste último, podemos relembrar e traçar um paralelo com o filme “O Cavaleiro de Copas”, pois este filme também é uma meditação sobre o sofrimento e a dor.

Relembro aqui o que escrevi sobre o filme de Malick e que pode ser dito também sobre “One More Time…”

“…(nas) palavras de um padre que resgata o sentido do sofrimento, da dor em nossas vidas, assim garantindo a beleza desta nossa realidade. Que se faz realidade concreta e bela, pois fruto dos atos de Deus.

As palavras do padre assombram com profunda sabedoria: ‘Deus mostra seu amor por nós não nos poupando da dor, mas ao enviar a dor…Sofrer o une a algo maior do que você mesmo, maior que sua própria vontade. Tira-o de seu próprio mundo, e o faz encontrar o que está além. Não temos apenas que aguentar pacientemente o sofrimento que Ele nos envia, mas entender estes como bênçãos. Como bênçãos mais preciosas do que a felicidade que desejamos para nós.’

É só a partir desta compreensão do sofrimento e da dor, que nosso cavaleiro pode libertar-se de um mundo falso e retomar sua jornada de volta ao lar.”

E é Mark Mordue – que está a escrever uma biografia de Cave – que em um artigo do The Guardian que melhor capta o momento em que Andrew Dominik transcende a simples narrativa do documentário, elevando-a a uma oração:

“Há uma longa tomada no fim de One More Time With Feeling que sai do estúdio enquanto a canção Distant Sky continua a nos embalar na voz da soprano dinamarquesa Else Torp, cantando que “soon the children will be rising”, embora “this is not for our eyes”. A câmera sobe por sobre as ruas de uma cidade durante a noite, depois mais para cima e para fora na estratosfera como vemos o planeta e o sol. É uma visão – e um presente de Dominik para Cave – que evoca a transmigração de uma alma para a eternidade.”

“One More Time With Feeling” é um daqueles momentos únicos do cinema – e da arte – que nos ajuda a encarar os momentos de desespero e dor, e assim, superarmos nossos próprios traumas ao nos entregarmos a algo maior, mais belo e – quem sabe? – eterno.

Metallica – Hardwired…to the Future!

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Pois bem…e vamos falar do novo disco do Metallica!

Desde as primeiras músicas apresentadas, “Hardwired”, “Moth Into Flame” e “Atlas, Rise” já dava pra sacar que algo de bom estava por vir depois de oito anos de silêncio.

Pois os caras entregam não apenas um dos melhores discos do ano, mas também um dos mais interessantes, empolgantes e criativos discos da carreira da banda.

Superando a tecnicidade fria do “Death Magnetic” e a falta de direção de “St. Anger”, a banda parece ter encontrado o equilíbrio entre força, criatividade e peso. Finalmente temos a chance de ouvir com clareza o baixo mastodôntico de Trujillo, e Hammet entrega solos variados, pulsantes e por mais que ainda seja viciado no pedal wah, está muito mais ousado e Hammet entrega solos variados, pulsantes e por mais que ainda seja viciado no pedal wah, está muito mais ousado, e carrega nos ruídos e distorções harmonizados a riffs destruidores. Lars Ulrich mostra que tamanho de bateria não é documento, e mesmo com uma pegada mais simples, consegue peso e velocidade quando quer. Agora, destaque mesmo é para os riffs monstruosos de Hetfield! Inspirado nas grandes bandas do gênero, Hetfield encontra seus melhores momentos e riffs desde o “Black Álbum”. Sem contar que sua voz nunca soou tão bem como neste disco.

Outro ponto importante e de destaque do disco são as letras: temas clássicos revisitados como em “Dream No More” e “Am I Savage?” ; a fama e suas armadilhas “Moth Into Flame”; o fracasso das utopias e o horror totalitarista em “ManUNkind” e na espetacular “Spit Out the Bone” ; a “girardiana” “Here Comes Revenge”; e as surpreendentes “Halo on Fire” e “Now That We’re Are Dead”, esta última, uma das melhores letras da pena de Hetfield, especialmente pelo seu tom “cristão”:

“When darkness falls, may it be
That we should see the light
When reaper calls, may it be
That we walk straight and right

When doubt returns, may it be
That faith shall permeate our scars
When we’re seduced, then may it be
That we not deviate our cause”

Das doze músicas do disco, diria que apenas “Confusion” não me agradou totalmente, apesar de ter uma baita letra, a música se arrasta por tempo demais. Mas os destaques são o que interessa, e começamos com “Spit Out the Bone” , música que poderia fazer parte de qualquer disco da fase “mitológica” da banda; “Dream no More”, clássica, pesada, encorpada; “Halo on Fire”, uma das minhas preferidas dos disco, especialmente pelas variações entre jazz, bossa nova e hard rock, sem contar os dois minutos finais, que são a pura essência do heavy metal! ; “ManUNkind” pela pegada “sabbathiana”, tanto no som quanto na voz de Hetfield e finalmente, “Now That We’re Are Dead”, música que gruda na cabeça desde os primeiros instantes com groove, peso, e puro hard rock.

Depois de mais de 30 anos na estrada, o Metallica encontra novamente a alegria de ser uma banda coesa, que não se contenta em fazer mais do mesmo e ousa se arriscar por caminhos novos. É o primeiro disco em muitos anos em que a banda não precisa provar nada, nem que consegue ser maior do que um disco (o Black Álbum), ou que ainda é relevante (Death Magnetic). Se DM é um album muito bom, mas que aponta para o passado…Hardwired tem alicerces clássicos, mas aponta para o futuro da banda, mais pesada, lenta e ao mesmo tempo, solta, tranquila em suas escolhas. E como disseram em recente artigo na NPR, se a banda não soa aos ouvidos tão criativa assim, foi por conta da própria força da banda em seus anos de estrada, que forçaram e romperam os limites entre o heavy metal e música pop.

Baita disco! Metallica still kicks you heavy, baby!!

“The Crown”

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Uma família no trono é uma idéia interessante. Ela reduz o orgulho da soberania ao nível da vida mesquinha…Assim a família real dulcifica a política pela adição de eventos agradáveis e bonitos. Ela introduz fatos irrelevantes no negócio do governo, mas são fatos que falam para o “coração dos homens”, e encantam seus pensamentos.

Walter Bagehot – “The English Constitution”

Desde as primeiras imagens divulgadas, sabíamos que “The Crown” seria uma das séries mais belas – e caras – já produzidas pela Netflix, mas para nossa felicidade e supresa, a série vai muito além de apenas uma “soap-opera” cheia de futricas e escândalos sobre a família real inglesa.

“The Crown” apresenta em sua primeira temporada, um estudo sobre política e a monarquia, sobre o conservadorismo e aquilo que devemos preservar em uma boa sociedade, sobre religião e a necessidade da “imaginação virtuosa” no mundo real.

O que seu criador, Peter Morgan – roteirista de alguns dos melhores filmes sobre o fazer político – tais como “Frost/Nixon”, “O Último Rei da Escócia” e especialmente “A Rainha” (a ponta do iceberg de sua admiração pela rainha Elizabeth II) – conseguiu criar nesta primeira temporada é magistral, belo e que não tem medo de mostrar aquilo que se quer permanente na política, mais ainda, na vida.

Logo no primeiro episódio da série, encontramos o momento em que o George VI, – interpretado com nobreza estóica por Jared Harris (Mad Men/Lany Price) pai da futura rainha – é desenganado pelos médicos e tem poucos meses de vida devido a um cancêr de pulmão avassalador.

O ponto chave, que revela o tom em que a série ira transcorrer, ocorre quando em uma celebração natalina, a família real recebe os súditos locais e o rei é presenteado com uma coroa de papelão ao som de uma canção natalina– “The Bleak Midwinter” – e o rei, com lágrimas contidas em seus olhos, junta-se a cantar:

“What can I give Him,

Poor as I am?

If I were a shepherd

I would bring a lamb;

If I were a wise man

I would do my part;

Yet what I can, I give Him –

Give my heart.”

aqui temos o homem que já se sabe morto, cuja realeza se dobra diante do destino final, e que reconhece ser apenas um pálido reflexo do rei dos reis, cena que revela de modo elegante, sutil, o elemento sacrificial por baixo de toda pompa real.

A partir daí, entendemos que mais do que apenas uma série sobre política, ou sobre a família real, temos a ousada decisão do seu criador de conduzir a história em passos morosos, mas não modorrentos, deixando que as sutis teias políticas e amorosas se entrelacem, revelando a intrigante perenidade da monarquia (e da Constituição) inglesa.

E para tal tarefa, a escolha do elenco foi precisa, ousada e surpreendente, especialmente na escolha do americano John Lithgow para o papel de Winston Churchill, que interpreta o maior primeiro-ministro inglês em toda sua pretensão e pompa, mesquinhez e sabedoria –  revelando um personagem ao mesmo tempo mais humano e grandioso. Também é uma forma de mostrar a tentação “fáustica” que acomete os líderes do executivo em relação à temperança do monarca. Este retrato de Churchill, que pode incomodar os mais ardorosos defensores da mitologia, se justifica especialmente no nono episódio (Assassinos) , com o encontro entre Churchill e o artista plástico Graham Sutherland (Sephten Dillan/Stannis Baratheon) e onde eles discutem em delicioso diálogo a verdadeira função da arte: ser aquela que revela a verdade e não apenas a ilusão pomposa e vazia de cargos e pretensões.

Outro personagem que prende nossa atenção é a do “meio-rei”, Edward, irmão mais velho de George VI e que abdicou do trono em troca do “verdadeiro amor”. Alex Jennings, que interpreta Edward, nos presenteia com uma interpretação tocante deste personagem enganado pela ilusão romântica e que se apequenou diante da história, e que ostenta uma vida burguesa e ressentida. Seus comentários sobre a coroação da rainha revelam toda sua pequenez – e majestade – ao descrever para seus amigos o momento da unção divina do monarca, que não pode ser testemunha de “olhos mortais”.

Mais ainda pode ser dito sobre estas meditações sobre o poder – e sobre a monarquia e sua ligação direta como sendo aquilo que é “permanente” em épocas de conflito e progressismo revolucionário – e que os criadores não se acanham em mostrar desde o primeiro episódio, especialmente em dois momentos: quando a rainha-mãe ensina à neta, agora “A Rainha”, que a monarquia vem diretamente de um comando divino, que é um “ato de Deus”(episódio 4); e no sétimo episódio – “Scientia Potentia Est” – onde somos convidados a testemunhar a educação de um governante, sendo aqui onde encontramos as reflexões sobre a constituição inglesa de Walter Bagehot  (e como ensina Roger Kimball na sua preciosa introdução para o livro “Physics and Politics”, a pronuncia do sobrenome de Bagehot é “badge-it”).

O elenco gira em torno da atriz Claire Foy no papel da jovem rainha – em interpretação que equilibra com maturidade anseios e desilusões, poder e graça, humildade e submissão – e é conduzido com maestria pelos diretores através da paisagem britânica e dos esplendorosos edifícios e castelos do poder – mas também em turnês pela Commonwellth (por sinal, subentendia na série esta a ideia de que pertencer ao Imperio Britânico não era lá uma má ideia…), e especialmente através dos labirintos da família real.

A busca por equilibrar a função de poder moderador, que tem como principal função “nada fazer”, com os laços fraternos que devem manter a família unida, como força e modelo daquilo que deve sempre “permanecer”, é onde encontramos os principais conflitos da jovem rainha em seus primeiros anos de reinado. E ao mostrar em detalhes a “educação” da Rainha Elizabeth, Peter Morgan está também a nos educar.

Suntuosa, elegante, e produzida com esmero, “The Crown” é, finalmente, um acerto preciso da Netflix.

Requiem para um filho – Skeleton Tree

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Em 1975, Bob Dylan respondia ao comentário de um radialista que, empolgado, falava como havia gostado de seu disco “Blood on the Tracks” – um dos discos mais pessoais do cantor, cheio de alusões a um casamento fracassado e seus demónios interiores. “Muitas pessoas me dizem que gostaram do disco”, Dylan respondeu. E continuou, “É difícil pra mim, imaginar pessoas gostando deste tipo de dor.”

Pois bem…

Madrugada do dia 09 de Setembro. O novo disco de Nick Cave & The Bad Seeds, “Skeleton Tree” já está disponível nos principais serviços de streaming da internet. Para os sortudos do primeiro mundo, é possível ainda assistir o documentário dirigido por Andrew Dominick, “One More Time With Feeling”, nos cinemas.

Aqui, ouço na madrugada pela segunda, terceira vez, o disco.

Confesso que me sinto incapaz de comentar algo digno sobre este último trabalho de Cave (e de seu parceiro, Warren Ellis). Mas ao mesmo tempo, é preciso articular sentimentos e impressões.

O que dizer de uma obra escrita sob o impacto de uma tragédia pessoal avassaladora? Para quem não sabe, um dos filhos de Cave morreu no fim de 2015 com apenas quinze anos de idade. Portanto, se comento algo aqui, sei que as palavras não farão justiça ao disco.

A partir deste ponto – a morte de Arthur Cave – Nick Cave e Warren Ellis tecem não apenas um disco, mas um Requiem que nos prende pela garganta, derruba, para no fim nos deixar de joelhos diante de um Deus distante, mas ainda lá.

O disco começa com um tom sombrio, pesado, mesmo a esperança de renovação é sombreada pela tragédia – “Jesus Alone” é a canção que abre o disco e dá o tom para as primeiras canções, que lidam diretamente com o desespero e a dor da perda: “You’re a distant memory in the mind of your creator, don’t you see?” ( https://www.youtube.com/watch?v=9iGxoJnygW8 )

Mesmo assim, nada nos prepara para canções como “Girl in Amber”, “Anthrocene”, “I Need You” e “Skeleton Tree”.

Cave se despe de qualquer ego, de qualquer máscara. Aqui não há um personagem a encarnar tipos sombrios – característico de sua obra – , mas o próprio homem despido até os ossos de qualquer fantasia ou persona.

A dor em sua alma faz sua voz quase desaparecer e se esconder em meio a sussurros, sombras e sintetizadores. Em “I Need You”, há tanta desesperança e solidão, que precisei parar um pouco para respirar novamente. (https://www.youtube.com/watch?v=BAMZYpZi_M4 )

E na canção mais tocante do disco, “Distant Sky”, Cave, devastado, quase sem voz, tem a lhe acompanhar a soprano Else Torp. Somente assim, através da suave e maternal voz feminina, conseguimos perceber a réstia de esperança que o sustém.

Se é possível gostar deste tipo de dor? Sim. Graças à generosidade artística de homens como Dylan, Cave, é possível. E devemos reconhecer que transformar a dor em arte, em beleza, não é para qualquer um. É necessário a chama criadora a iluminar, como uma vela na escuridão, a noite escura da alma.

Não apenas o melhor disco do ano, mas um dos discos mais belos da história da música.

Obrigado, Mr. Cave.

“Let us go now, my only companion
Set out for the distant skies
Soon the children will be rising, will be rising
This is not for our eyes”.

A Peregrinação de Terrence Malick

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Terrence Malick é um nome único no cinema atualmente. Poucos diretores na história do cinema são tão pessoais em suas obras, que apenas algumas cenas já revelam o nome por trás da obra.

Isto pode ser uma benção ou uma maldição, especialmente se você não cede aos apelos de um público – e crítica – preguiçoso, indolente e mesquinho.

O diretor americano, assim como T.S. Eliot, é dono de uma voz única, tão única que inimitável, tão única, que hermética em sua simplicidade, que engana os “intelectuais, porém idiotas”, na feliz – e sarcástica – expressão de Nassim Taleb.

É fácil cair na armadilha de enxergar seus filmes, especialmente após o monumento artístico que é “The Tree of Life” (2011), como meras repetições monocórdicas, belas, mas insípidas.

Isto aconteceu com “To the Wonder” (2012) e especialmente com seu mais recente filme, “The Knight of Cups” (2015).

Lendo as críticas feitas, percebemos que não é um problema do diretor, e sim da crítica, que se ossificou, que não consegue enxergar para além do que lhe é apresentado. Não conseguem enxergar o todo, a unidade escondida por trás de imagens – aparentemente aleatórias e desconexas. Vivem uma vida de danação, pois como diz um dos personagens principais do filme: “os pedaços da sua vida são soltos, nunca se encaixam em um sentido, estão jogados por aí’.

E assim, ao lermos certas críticas, percebemos que estas revelam bem mais sobre a desordem interior dos críticos do que qualquer coisa!

“The Knight of Cups” é o terceiro filme da anamnese que Malick faz da sua vida. Dos três filmes, é o mais assustador, o mais sombrio, o mais angustiante. Se em “The Tree of Life” e “To the Wonder” meditamos sobre o amor de Deus – seja este expresso através da família ou por Eros – o encontro de duas almas – em “The Knight of Cups”, Malick nos faz atravessar o reino onde esquecemos quem somos. Aqui o que interessa a Malick é mostrar como um homem pode perder sua alma, como ao não ancorar sua vida em fatos reais, concretos – como a coragem para ter e criar uma família – pode arrastar mesmo o mais “nobre cavaleiro” e fazer com que este esqueça sua mais preciosa missão: resgatar sua alma para Deus.

Para tal, Malick usa dos artificios das novas tecnologias das câmeras digitais – recurso que utiliza aqui de forma ainda mais radical – para construir sua narrativa, que, apesar de semelhante, é completamente diversa em termos de uso de cores e sons, dos seus últimos dois filmes. Não podemos negar que há uma unidade estética nos filmes, mas que são filmes com identidade própria – assim como as óperas do “Ciclo do Anel” de Wagner, são únicas e unas ao mesmo tempo.

Não há aqui a leveza inocente que encontramos em “A Árvore da Vida” e nem as cores de um amor melancólico e outonal de “To The Wonder”. Em “The Knight of Cups”, Malick e seu diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, trabalham em um clave gélida, onde as imagens são marcadas por uma frieza que revela toda artificialidade em que o personagem central, Rick (vivido por Christian Bale) transita. Vale ressaltar o trabalho magistral de Lubezki, que aqui encontra um diretor à altura de seu talento, pois não há imagem sobrando – ou artificial – tudo o que vemos e ouvimos ajuda na condução da narrativa, nos conta a história. Não há aqui exibicionismo vazio, esteticista.

Neste filme encontramos Rick, escritor de comédias a transitar em um mundo onde ele pode ser quem ele quiser, pois é o que “as palmeiras prometem”.

Vivendo neste mundo onde nem mesmo a Terra oferece segurança – afinal, tremores abalam a cidade e helicópteros voam o tempo todo a resgatar mortos e feridos – Rick se deixa levar pelo seu desejo por mulheres, homens de negócios o corrompem, cafetões de luxo oferecem festas pagãs, e o próprio “Estrela da Manhã” oferece seus préstimos ao escritor.
Neste mundo irreal, Rick parece sofrer de um crônico “writer`s block”, e passa seus dias entre festas que fariam inveja a Bojack Horseman ou a caminhar por entre cenários artificiais dos estúdios de cinema.

Mas é também nesta realidade que o personagem de Bale irá encontrar – ou será resgatado por – aqueles que, aos poucos, vão mostrar para ele que há algo para além do dinheiro, além das mulheres e da fama fácil. Mas tais ensinamentos não são fáceis de serem aceitos. É preciso reconhecer os erros da própria vida: a raiva e o ressentimento de seu pai, o egoísmo que arruinou seu casamento, a destruição de um casamento alheio, e a dor de ver um irmão se auto-destruir e nada fazer.

O filme poderia cair em uma interpretação gnóstica, pois a referência à “pérola perdida”, tem inspiração no poema “O Hino da Pérola”,  um texto apócrifo do Novo Testamento. Neste poema, nossas almas estão perdidas neste mundo material e esquecemos nossa verdadeira origem.

Mas esta interpretação é posta abaixo pelas palavras de um padre que resgata o sentido do sofrimento, da dor em nossas vidas, assim garantindo a beleza desta nossa realidade. Que se faz realidade concreta e bela, pois fruto dos atos de Deus.

As palavras do padre assombram com profunda sabedoria: “Deus mostra seu amor por nós não nos poupando da dor, mas ao enviar a dor…Sofrer o une a algo maior do que você mesmo, maior que sua própria vontade. Tira-o de seu próprio mundo, e o faz encontrar o que está além. Não temos apenas que aguentar pacientemente o sofrimento que Ele nos envia, mas entender estes como bênçãos. Como bênçãos mais preciosas do que a felicidade que desejamos para nós.”

É só a partir desta compreensão do sofrimento e da dor, que nosso cavaleiro pode libertar-se de um mundo falso e retomar sua jornada de volta ao lar.

Malick talvez seja um dos diretores mais corajosos da história do cinema, pois poucos teriam a coragem de expor de forma tão explicita – ou elíptica – os pecados de sua vida de forma tão transparente, tão aberta. Em seus últimos filmes, Malick é tão simples e pungente, tão arrebatador e verdadeiro, que sentimos estar diante não apenas de uma obra de cunho estético, mas de simples e belas orações direcionadas a Deus.

 

A Mentalidade do Subsolo

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Se vocês acham que a crítica que vem do subsolo é moda recente, que nasceu com o surgimento da internet e especialmente das mídias sociais, é melhor repensar tal achismo.

Vejam que mesmo Machado, o nosso Bruxo do Cosme Velho, foi alvo de críticas rasteiras, mesquinhas e birrentas de um seu lá desafeto. Tudo por conta de certos poemas mal ajambrados e caducos já no nascedouro, escritos pelo sergipano Silvio Romero.

Leiam cá abaixo, a crítica de Romero a Machado, escrita pelos idos de 1897.

Na medida que avancem no texto, ludicamente exercitem o arraigado ressentimento de suas almas: substituam o nome do Bruxo por aquele seu atual e mais evidente contemporâneo, o desafeto intelectual que impunimente ousa roubar os louros – ainda que pífios – do sucesso editorial. Vejam se não cai como uma luva puída a tal crítica. Eis, em toda sua graça ressentida, a mentalidade do subsolo.

Facilitando o exercício, já deixo em branco os trechos no texto onde Silvio, o Romero, escreveu o nome de Machado. Assim é só lançar o comando CTRL+C, copiar algum trecho do livro atualmente escrito que tanto te incomoda e avacalhar, com todo despudor característico dos medíocres, aquele que tanto lhes causa inveja.

Inté!

“O estilo de ____________, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivace, nem rútilo, nem grandioso, nem eloquente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente, do vocabulário e da frase. Vê se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da linguagem.
___________ repisa, repete, torce e retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão dum tal ou qual tartamudear. Esse vezo, esse sestro, tomado por uma cousa concienciosamente praticada, elevado a uma manifestação de graça e humour, era o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra.
É abrir ao acaso qualquer livro do prosador ________. Seja o mais antigo de seus volumes de contos, e logo na primeira página:

*aqui copie aquele trecho da orelha ou da contracapa que tanto fazem doer os seus intestinos gramaticais. A crítica do sergipano continua (in)válida e atual, ainda que cheire mal.*

Percebe-se que não há nativa fluência na língua, nem movimento nas idéias; é alguma cousa que não vem de fonte copiosa e precípite, porém que escorre docemente como um veio pouco abundante, posto que límpido e suave. É que tal essencialmente é o espírito do romancista. Pouco vasto, possui em alto grau a facilidade da reflexão. Com um punhado de idéias pouco extensas, com um vocabulário que não é dos mais ricos, faz muitas e repetidas voltas em torno dos fatos e das noções que eles lhe deixam na inteligência, orientada por um imperturbável bom-senso, que lhe supre a imaginação e ajuda a observação que não deixa de ser notável. O cultivo dos bons mestres da língua forneceu-lhe certas formas de construção e de frase que lhe imprimem ao estilo a graciosidade da correção e apuro gramatical, na falta de outras qualidades mais brilhantes.”

Na foto, o Bruxo do Cosme Velho. Que não dava a mínima para as críticas e continuou a escrever aqueles que seriam os mais importantes livros de nossa literatura, fundou a ABL e teve amigos como Joaquim Nabuco. Continua lido – ainda que e forma equivocada – enquanto o tal sergipano é nota de rodapé, chistosa, do fluminense. Eis o destino – e inferno particular – dos ressentidos.

A Odisséia de Dory

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O mais novo filme dos estúdios Disney/Pixar é uma grata e emocionante surpresa.

Antes de mais nada, uma confissão: sou fã dos desenhos clássicos da Disney, de “Branca de Neve” a “Bernardo e Bianca”, de “Aristogatas” a “Rei Leão”, sempre me encantei com os universos criados pelos artistas que trabalhavam para o genial Walt Disney.

O mesmo com os estúdios Pixar, que desde “Toy Story”, me conquistaram completamente – e chamaram a atenção do conglomerado Disney, criando assim uma das maiores parcerias do mundo do entretenimento.

O sucesso dos filmes Disney/Pixar tem como base, como fundamento, narrativas que tratam de temas caros a todos os “contadores de historias” que ousaram contar aventuras e desventuras. De Homero aos Irmãos Grimm, de Ovídio a Tolkien, de George RR Martin aos pais e mães que narram pequenos contos para seus filhos na hora de dormir, algo sempre os une: ensinar que em um mundo sombrio, desolador e que nos assusta o tempo todo com a deslembrança, há algo mais profundo e real que nos sustenta, ampara e conduz.

No começo do filme, somos apresentados à pequena Dory e seus pais, que tentam educar a pequena peixinha a se orientar no mundo, especialmente por ela sofrer de “perda de memória recente” – curiosamente, um dos melhores filmes de Christopher Nolan, “Memento” traz um personagem que sofre deste mal – e precisar de todo cuidado para conseguir sobreviver no mar.

A preocupação de seus pais, faz com que Dory procure consolar estes com um presente, uma concha roxa, mas ao tentar levantar a concha, ela é arrastada pela correnteza e vai parar em alto mar. Ela está sozinha e assustada, e com seu problema de perda de memória, logo esquece de seus pais, o maior medo da peixinha. É a Dory que encontramos, junto com Marlin e Nemo, no primeiro filme.

Símbolo central no filme, as conchas são “um tesouro submarino misterioso, em formas belas, por vezes simétricas, muitas vezes estriadas e espraiadas, revelando estágios de crescimento. As cavidades de uma concha são reminescentes da espiral sagrada, do labirinto e do centro.” São assim, símbolos de nossa vida interior, mas também de delicada segurança familiar.

Dory, esquecida de seus pais, vive agora uma vida “normal” com Marlin e Nemo: ela ajuda na escola dos peixinhos, diverte-se com canções e vive sempre a nadar, cercada por amigos que a ajudam a “não esquecer”. Mas algo se rompe dentro dela – por sinal, uma concha quebrada na tradição cristã significava a liberdade da alma – e com isso, lembranças de seus pais começam a ressurgir: as primeiras brincadeiras, músicas, o caminho de casa e o carinho e amor de seus pais.

Ao redescobrir estas lembranças, Dory sente algo que estava soterrado em meio às deslembranças de sua vida: a existência de sua família. É então que ela decide atravessar o oceano para reencontrar seus pais, suas origens, sua Ítaca. Para tal, ela precisa acessar suas memórias mais profundas, redescobrir aquilo que podemos identificar como aquela “disposição conservadora” , de que fala Oakshott, que é inerente a todos nós. Aquilo que preservamos quando tudo parece perdido, pois é a memória a grande depositaria de nossas tradições. Sem a memória, a criatividade, a imaginação, nada mais é do que fogo-fátuo.

Obviamente a odisseia da pequena Dory é cheia de aventuras, suspense, excelentes piadas – Hank, o “septopus” rouba a cena em diversos momentos – mas o momento central do filme é de arrancar lágrimas até dos mais empedernidos marmanjos. Momento que equilibra de forma magistral esperança, medo, culpa e amor de forma bela, delicada e emocionante.

“Procurando Dory” é uma pequena obra prima da narrativa, destas que nos fazem encontrar o caminho de volta para casa.

p.s. o filme tem uma divertida cena pós-creditos!

Dionisius Amendola
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“Advice for Geraldine on her Miscellaneous Birthday” – by Bod Dylan

“stay in line. stay in step. people
are afraid of someone who is not
in step with them. it makes them
look foolish t’ themselves for
being in step. it might even
cross their minds that they themselves
are in the wrong step. do not run
nor cross the red line. if you go
too far out in any direction, they
will lose sight of you. they’ll feel
threatened. thinking that they are
not a part of something that they
saw go past them, they’ll feel
something’s going on up there that
they don’t know about. revenge
will set in. they will start thinking
of how t’ get rid of you. act
mannerly towards them. if you don’t,
they will take it personal. as you
come directly in contact face t’ face
do not make it a secret of how
much you need them. if they sense
that you have no need for them,
the first thing they will do is
try t’ make you need them. if
this doesn’t work, they will tell
you of how much they don’t need
you. if you do not show any sadness
at a remark such as this, they
will immediately tell other people
of how much they don’t need you.
your name will begin t’ come up
in circles where people gather
to tell about all the people they
don’t need. you will begin t’ get
famous this way. this, though, will
only get the people who you don’t need
in the first place
all the more madder.
you will become
a whole topic of conversation.
needless t’ say, these people
who don’t need you will start
hating themselves for needing t’ talk
about you. then you yourself will
start hating yourself for causing so
much hate. as you can see, it will
all end in one great gunburst.
never trust a cop in a raincoat.
when asked t’ define yourself exactly,
say you are an exact mathematician.
do not say or do anything that
he who standing in front of you
watching cannot understand, he will
feel you know something he
doesn’t. he will react with blinding
speed and write your name down.
talk on his terms. if his terms
are old-fashioned an’ you’ve
passed that stage all the more easier
t’ get back there. say what he
can understand clearly. say it simple
t’ keep your tongue out of your
cheek. after he hears you, he can
label you good or bad. anyone will
do. t’ some people, there is only
good an’ bad. in any case, it will
make him feel somewhat important.
it is better t’ stay away from
these people. be careful of
enthusiasm…it is all temporary
an’ don’t let it sway you. when asked
if you go t’ church, always answer
yes, never look at your shoes. when
asked you you think of gene autry
singing of hard rains gonna fall say
that nobody can sing it as good as
peter, paul and mary. at the mention
of the president’s name, eat a pint of
yogurt an’ go t’ sleep early…when
asked if you’re a communist, sing
america the beautiful in an
italian accent. beat up nearest
street cleaner. if by any
chance you’re caught naked in a
parked car, quick turn the radio on
full blast an’ pretend
that you’re driving. never leave
the house without a jar of peanut
butter. do not wear
matched socks. when asked to do 100
pushups always smoke a pound
of deodorant beforehand.
when asked if you’re a capitalist, rip
open your shirt, sing buddy can
you spare a dime with your
right foot forward an’ proceed t’
chew up a dollar bill.
do not sign any dotted line. do not
fall in trap of criticizing people
who do nothing else but criticize.
do Not create anything. it will be
misinterpreted. it will not change.
it will follow you the
rest of your life. when asked what you
do for a living say you laugh for
a living. be suspicious of people
who say that if you are not nice
t’ them, they will commit suicide.
when asked if you care about
the world’s problems, look deeply
into the eyes of he that asks
you, he will not ask you again. when
asked if you’ve spent time in jail,
announce proudly that some of your
best friends’ve asked you that.
beware of bathroom walls that’ve not
been written on. when told t’ look at
yourself…never look. when asked
t’ give your real name…never give it.”

Os “processos de Moscou”

Algumas curiosidades sobre os “processos de Moscou”, que José Eduardo Cardozo citou como exemplo de um estado autoritário, persecutor, em seu discurso de defesa de D.Dilma. O paralelo é, no mínimo, imoral:

1 – Nos processos, a primeira coisa exigida dos réus era que assumissem publicamente a “culpa” por seus crimes. Caso isso não ocorresse, a punição podia (e era) estendida aos familiares, amigos e até colegas de trabalho.

2 – Não havia espaço na imprensa, na televisão, no meio cultural, para que os réus pudessem se defender livremente, contar suas versões dos fatos, dizer a verdade. Mesmo em ambientes familiares ou no trabalho, dizer que estava sendo perseguido pelo governo era uma atitude perigosa, suicida até.

3 – Em muitos casos, os réus eram pessoas que acreditavam no Partido, no grande líder, na causa socialista. Ainda assim, ao menor desvio de conduta, ao menor sinal de oposição, na mais simples reunião, uma palavra colocada contra o dogma era condenação certa.

4 – A submissão ao Partido, ao líder, ao dogma era obrigatória, inexorável, e alcançava todo o espectro social. Mas especialmente onde mais importava: na classe dos servidores públicos e nos ambientes culturais/intelectuais do país. Nestes ambientes o controle era maior, feroz, mesquinho. O Partido e a paranóia alimentavam todo o ambiente: colegas denunciavam colegas; filhos acusavam pais; amigos e amantes podiam ser informantes da polícia secreta; um simples poema podia significar o exílio, a prisão; o terror e o medo eram alimentados através de sussurros e fofocas.

5 – O objetivo final, mais do que apenas eliminar opositores, falsos ou reais, era recontar a História, criar uma nova narrativa. Por isso assumir a “culpa” era essencial nos julgamentos, por isso a manipulação de fotografias, documentos, fatos. Para criar um “novo homem” era necessário, antes de tudo, recriar a História.

Como podem ver é igualzinho, “cuspido e escarrado”, com o que aconteceu no caso da D.Dilma…só que não!

Para saber mais:

Livros
“1984” e “A Revolução dos Bichos”- George Orwell
“Sussurros” – Orlando Figes
“O Comunismo” – Richard Pipes
“O Livro Negro do Comunismo” – Stéphane Courtois (e outros)
“Cortar o Mal Pela Raiz!” – Stéphane Courtois (e outros)
“Gulag: A History” – Anne Applebaum
“The Kravchenko Case” – Gary Kern
“The End of Commitment” – Paul Hollander
“The Anti-Communist Manifestos” – John V. Fleming
“Man is Wolf to Man” – Janusz Bardach
“Spying for the People – Mao’s Secret Agents – Michael Schoenhals

Filmes:
“A Soviet History” – Edvins Snore
“Uma História do Comunismo – A Fé do Século XX” – Patrick Barbéris
“A Vida dos Outros” – Florian Henckel
“Katyn” – Andrzej Wajda
“Amador” – Krzysztof Kieślowski
“Chuck Norris Contra o Comunismo” – Ilinca Calugareanu
“Caminho da Liberdade” – Peter Weir
“Taurus” – Aleksandr Sokurov
“Ponte dos Espiões” – Steven Spielberg
“Antes do Anoitecer” – Julian Schnabel

Cultura pra quê?

Artistas, intelectuais e esta massa interessante de usuários de redes sociais que reclamam imensamente do capitalismo mas se aproveitam dele de todas as maneiras possíveis, estão bravos, atormentados por revoltas gastrointestinais excruciantes e indignadíssimos com a fusão – isto mesmo, fusão – do ministério da cultura com o ministério da educação, que (re)formam o tal do MEC.

É realmente estupefaciente termos, em pleno século XXI, gente que ainda acredita que a melhor forma de se fomentar a cultura, a inteligência e a criatividade de artistas, de intelectuais, a educação plena mesma, deve ser entregue e coordenada pelo Estado, através de ministérios incompetentes, mastodônticos e ineficientes (ineficiência esta que nem é tão ruim, visto que evita danos piores aos cérebros juvenis, mas vocês entenderam o ponto).

Retomando: realmente é preciso desconhecer muito, mas muito mesmo da história cultural que foi produzida a ferro e fogo em países onde o estado era o “papaizinho”, que determinava tudo o que devia ser ensinado, divulgado, pesquisado. Onde o espaço de aprendizagem era transformado em laboratórios de doutrinação pura e simples.

Não perceber que esta gana por “educação e cultura”, que ecoa os piores momentos da Revolução Cultura Chinesa, onde jovens universitários corriam a China “ensinando” aqueles que eram suspeitos de não estarem alinhados com o Partido, é realmente não entender nada do significado da palavra Cultura.

Por sinal, os jovens universitários – ô turminha complicada, não importa a época, não importa o país – com sua sede de “justiça social” eram tão radicais e puros em suas crenças, que Mao teve que colocar o exército na rua para parar a insanidade (claro, depois que os meninos e meninas conduziram seu “Pequeno Terror” por três anos!)

Realmente fica difícil de entender como este pessoal que – diacho! – ao menos “1984” do Orwell devem ter lido, podem querer de tão bom grado aceitar os ditames de um bando de burocratas que, convenhamos, são os últimos a entender patavina do que é “Arte” ou ‘Cultura”. Bom, sejamos justos com estes burocratas: talvez alguns tenham lá sua expertise sobre fenômenos antropológico culturais de relevância duvidosa.

Confesso que gostaria de ver artistas, intelectuais, pensadores e mais todos os heterônimos possíveis à esta “classe”, com um pouco mais de independência, com menos necessidade de ter um “paizinho” controlando verbas e benesses. Sei lá, que este pessoal seja um pouco mais punk e menos submisso.

E isto tudo, como disse lá em cima, por conta de uma fusão entre dois ministérios apenas. Imagine se fosse a extinção do tal MEC? Iam rasgar as vestes no MASP ou na Cinelândia, ir de joelhos para Aparecida, chorar lágrimas de sangue no Tiête.

Mas o mais provável é que fizessem apenas um abaixo assinado, cheio de assinaturas de gente relevante! Bom, atualmente acho que alguns “memes” seja o mais provável. Ou algum outro movimento escatológico, que é a nova linha de argumentação da turma.

p.s. antes que me questionem – sim, acredito que alguns projetos podem e talvez até devam ter um suporte do estado. Mas esta é uma outra discussão, mais ampla e que não cabe agora discutir.

p.s. 2 esta turma parece santa, mas não é, não mesmo! Este pessoal reclama, chora, diz que é perseguido, mas são os primeiros a boicotar colegas de profissão que não professam a fé no discurso oficioso, partidário, politiqueiro. Isto é, praticam a censura branca, covarde, canalha. Eles sabem disso e praticam isto muito bem! Portanto, vão “mimizar” em outra página!